Somos todos loucos aqui

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Para variar, a escrita tem sido meu melhor remédio desde sempre. É aqui, por exemplo, que nesse momento eu vou gritar tudo o que está entalado no meu peito. Porque às vezes tenho a séria sensação que estou aos poucos enlouquecendo. Já perdi as contas de quantas vezes me imaginei levantando, jogando algo na parede e gritando a plenos pulmões. Bem cena de novela mesmo, sabe?

Mas eu sei que preciso ter autocontrole. E como é difícil ter autocontrole! Em vez de arrebentar coisas na parede cinematograficamente, eu me levanto plena, vou ao banheiro e desabo. Também perdi as contas de quantas vezes fiz isso. O nome disso é sofrimento. Causado pelas outras pessoas ou por mim?

O quanto eu sou responsável pelo meu sofrimento? O quanto eu permito que as pessoas façam o que bem entendem, infrinjam o limite da educação e me cutuquem com um espeto? Quanto tempo eu me permiti sangrar sem reclamar. Apenas para ser forte. Apenas para não me erguer com um baleiro nas mãos e arremessá-lo nas paredes?

No fundo eu só queria que o baleiro fosse a representação das minhas frustrações. Dos gritos que eu não dou. E que no momento em que eu arremessá-lo contra o concreto, tudo se desfaça. Tudo termine em cacos. Acabe.

O quão eu já estou louca e vendo coisas?

Será que estou no meu estado normal?

Me pergunto: será que estou exagerando?

Mas em quantos ditos exageros perdi um pouco de mim, porque em geral as pessoas não pensam que estão exagerando. Estão sendo expansivas.

Me diminuo para que a loucura do outro não me encontre com tanta frequência.

Estou cada vez menor.

Sou fraca.

Deveria aguentar firme e forte. Porque ser forte é a característica das pessoas de sucesso, ouvi dizer.

Mas até que ponto vou permitir que minha própria força me machuque?

O sofrimento, de todos os lados, é ocasionado por mim. Tenho brechas que permitem os cutucões. Preciso ser forte, me blindar.

Não consigo por vezes me esquivar da loucura alheia. Sou louca também. Mas estou me dissipando. Me destruindo. Permitindo. Fazendo.

E cada vez menor.

Onde está a minha força?

Ao meu eu de 17 anos

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Li um texto essa semana que era uma carta de um eu de 21 anos escrevendo para o eu de 11 anos. Achei o exercício sensacional, transformador. Porque quando mais novos, somos repletos de expectativas da vida adulta e quando chegamos lá a tendência é… Se frustrar. O texto é do Chris, e você pode ler clicando aqui.

Vou seguir a lógica de dialogar com o meu eu de 10 anos atrás. Então eu vou pegar a Ana de 17 anos pela mão, quase de forma maternal, e pedir para ela sentar ao meu lado porque eu tenho uma história sensacional para contar a ela. A história de como os anos seguintes vão transformar completamente a forma como ela enxerga o mundo.

Preciso dizer que aquela visita à Mostra de Profissões do Cesumar, que inclusive você estava trabalhando por meio do Rotary, será decisiva para decidir o seu futuro. Eu sei que muitos dos seus amigos nesse momento estão focados no vestibular, e que muitos vão dizer depois da mostra que Jornalismo não é uma opção muito viável.

Você em breve vai entrar na redação do O Diário, tremendo de medo e suando frio para dar uma entrevista falando sobre o trabalho social desenvolvido pelo Interact. Essa entrevista será publicada em um espaço dentro do caderno de cultura. Deixa eu te contar uma coisa: você vai trabalhar nesse lugar, começando inclusive no caderno de cultura como estagiária. E esse lugar vai ser palco para muitas realizações pessoais e profissionais na sua vida.

Não me olhe incrédula, menina. Você vai fazer tudo isso, e eu nem vou dar spoiler porque será surpreendente demais. Você não perde por esperar!

Eu sei que hoje você só queria ter voz para falar o que você acha que é importante para o mundo. Mas será muito melhor: você dará voz a muitas histórias e muitas pessoas. Vai ser instrumento de intermediação de muitas causas, e vai ajudar muitas pessoas através desse ato. Trabalhar no jornal será uma das suas escolas de vida.

Então quando disserem que não tem campo em jornalismo em Maringá para que você repense sua escolha, faça exatamente como você vai fazer: ignore. Aliás, você vai ter de aprender a lidar com vários comentários negativos sobre as suas decisões, mas ouso dizer que hoje eu tenho mais orgulho de quem você foi do que você teria orgulho de quem se tornou. Você é forte. Destemida. Corajosa. Céus, como você é corajosa. E você vai se superar ano após ano.

Muitas pessoas próximas não vão gostar do seu jeito e da forma como você encara o mundo. Mas tem sido assim desde sempre, não é? Eu sei que hoje você se machuca e se fecha. Mas você vai superar tudo isso, embora sua autoestima ainda fique camuflada por um medo assombroso de se aceitar como você é.

Você vai conquistar seu espaço.
Dificuldade após dificuldade.
Mas vai.

Eu sei que aí atrás, nas gincanas do colégio, você fica às sombras tirando fotos dos colegas com sua câmera Sony, atualizando o perfil no Orkut da turma e fazendo artes de divulgação das atividades para colar no mural da escola.

Pelos corredores você sempre escuta alguém elogiar e perguntar quem será que está fazendo isso. Mas você é extremamente tímida para dizer que está por trás dessas pequenas e notáveis ações. Você vai continuar tímida, mas agora sem muito medo de expor suas opiniões e ideias. Sua sinceridade aflorada com o tempo vai assustar muita gente, mas também vai te blindar de muitos sofrimentos.

Sua professora de redação Sonia será imprescindível nessa etapa, assim como sua primeira professora Lígia foi. Você vai tomar ainda mais gosto por escrever com esse incentivo fundamental.

Talvez sua sinceridade também te faça sofrer, porque em geral as pessoas pedem por ela, mas quando escutam, ficam bravas. Te confirmo já uma suspeita sua: as pessoas são estranhos universos paralelos, cheios de problemas e medos, tentando conviver em harmonia em conjunto.

Vai dar ruim em vários momentos. Mas a vida é basicamente assim. Um eterno quebra-cabeças de sentimentos e comportamentos.

Eu sei que hoje você é meio rebelde sem causa, se acha um patinho feio e mal tem coragem de se olhar no espelho. Embora o Interact te dê um sentido na vida, você não tem muita fé. Fé em si mesma, nas pessoas, nos relacionamentos e, claro, em Deus.

Aqui na frente você vai encontrar uma Ana casada, crismada (não adiantou fugir, viu?), autora de um livro-reportagem e com uma carga de experiência proporcionada pela profissão quase que indescritível.

Sim, você ouviu direito: casada. Nem me venha com esse papo de que não vai casar, que acha que relacionamento não vinga, que se for um dia para acontecer, no máximo vai morar junto e pronto. Nesse exato momento você está cuspindo pra cima e esse cuspe vai cair direto na sua testa. Você vai rir disso depois.

E sim, você vai casar. Na igreja. Seu primo de segundo grau vai ser o padre responsável por realizar a cerimônia. Sim, ele voltou da Espanha. E não, não vai casar com nenhum carinha de banda. Ele não tem tatuagem, não tem piercing, nem tem o cabelo comprido. Ele é um ano mais novo que você – e você vai ter que engolir isso, nada de falar que prefere gente mais velha. De velha já basta a Ana que habita na sua cabeça.

Ele não escreve versinhos com rimas, nem vai compor uma música sobre vocês dois. Ele não tem absolutamente nada do que você buscava porque sinceramente, o que diabos você está buscando, Ana? Mas vou te adiantar: ele vai transformar sua vida. Daqui uns anos você vai fotografar bandas… (Sim, vai fotografar!) E enquanto seus olhos estiverem focados em buscar alguém no palco, você vai descobrir depois que ele estava ao seu lado, na plateia.

Bem pertinho.

Durante vários anos vocês vão se cruzar pelos mesmos caminhos sem se verem. Vão frequentar os mesmos espaços, terem amigos em comum, mas não vão olhar um para o outro.

Respeite. Esse é um tempo imprescindível de preparação.

Porque quando o olhar de vocês se cruzarem, ele vai virar seu mundo de cabeça para baixo. Você, que desde os 17 anos – ou menos – se considera uma pessoa perdida e com a cabeça bagunçada… Vou te contar uma coisa: ele vai te ajudar a organizar tudo. Você não vai mais se sentir perdida ao lado dele. E é basicamente isso que você precisa saber por enquanto.

Não tenha medo.

Quando o Valenciano te der um livro chamado “Juventude Consciente”, que fala sobre política, leia com atenção. Eu sei que embora você tenha tirado o seu título de eleitor há pouco tempo, você não vai ler sobre política. Mas ó: no futuro vai procurar esse livro para rever vários pontos dele. Trabalhar com política será outra escola importante na sua formação.

Você também vai trabalhar em uma campanha eleitoral, e nem vai ser como mesária. Nesse ponto você vai sofrer bastante, mas vai aprender finalmente a separar amizade de coleguismo. Não vou falar mais sobre porque você tem transtorno de ansiedade – e não sabe ainda – e vai ficar muitíssimo mal com isso.

Sabe as noites em claro e tardes infinitas que você passa em fóruns buscando aprender a mexer no Photoshop? Continue assim. Daqui exatamente 10 anos você vai agradecer muito a curiosidade da Ana adolescente, porque seu conhecimento básico vai ajudar muito no seu trabalho atual.

Você vai continuar curiosa. Buscando aprender sempre mais. A mulher que você vai ser tornar ainda é cheia de medos, ainda é insegura e talvez menos corajosa do que você é com 17 anos. Mas ela está orgulhosa e prestes a te dar um abraço.

Vem, Ana. Não vai ser fácil, mas eu prometo que será incrível.

A Revolução dos Bichos

Você chega em casa acelerada perto das 21 horas, recolhe o coelho da área externa e vai limpar a bagunça que ele fez por lá, rezando pro xixi dele não ter manchado o azulejo. Transfere ele para o jardim de inverno, coloca o leite para ferver, liga o computador. Abre a porta da frente para o Ricky ser cachorro e latir um pouco no portão. Espera o leite terminar de ferver e deixa esfriando. Volta para o computador e começa a correr com os trabalhos atrasados.

Retorna para o leite, agora morno, e experimenta fazer uma receita de iogurte natural. Embala o recipiente de vidro com um pano e deixa repousando – alguém tem que repousar nessa casa – por pelo menos 8 horas. Que saudade ter 8 horas de repouso! Mas tudo bem, iogurte, você merece. Vai lá descansar. Enquanto isso eu sento no computador.

– Amor, tá terminando?
– É o último – repeti disso pela 3ª vez sabendo que não seria o último.

O gato da vizinha tentou entrar de novo em casa. Eu só fico pensando no estrago que ele faria com uma chinchila, um coelho e dois esquilos. Ricky volta todo pimpão sem honrar a ração que come – nem assustou o gato, esse catioro. Olho novamente para a cara deslavada dele… Marrom. Suspiro, nem quero saber como que isso aconteceu.

Desligo o computador finalmente, vou tomar banho, lavar a cabeça depois de ficar com o cabelo preso por 4 dias seguidos sem ter tempo hábil para lavá-lo. Seco. Nem acredito que vou deitar na cama senhor! É 1 hora da manhã.

Despertador toca. Marido olha o jardim e descobre de onde veio a nova coloração do Ricky: de um jardim cavoucado. Roupas no sofá, brinquedos do cachorro por todos os cômodos, pó fazendo companhia nessa convivência harmônica. Livros empilhados na poltrona esperando uma solução. Eu sento na mesa para tomar café – querendo deitar em posição fetal debaixo da mesa e esperar uma solução divina para a bagunça acumulada de duas semanas trabalhando de domingo a domingo – e ouço um barulho esquisito, olho para o lado e lá está ele: Bilbo, o coelho idoso, em cima do vaso de costela de Adão… Devorando a terceira folha. Corro na tentativa em vão de salvá-la, mas cheguei tarde.

Me rendi à revolução dos bichos, tudo bem, a casa é toda de vocês.

Sobre balões e pessoas

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Costumo dizer que amanheço todos os dias com o meu balãozinho da motivação cheio. Penso diariamente: HOJE VAI SER INCRÍVEL! E por vezes (mais constante do que eu esperava, é verdade), sinto esse balãozinho estourar no decorrer do dia e a motivação ir ralo abaixo. Ou sumir no ar, como preferir. Como um punhadinho de areia que pego todos os dias cedo e, no decorrer do dia, a areia se esvai por entre os dedos até sobrar poucos grãozinhos grudados no suor da mão de uma pessoa tomada pela ansiedade de mais uma vez permitir que venham com um palito de dentes e estourem meu arsenal motivacional.

Aí nem sempre estourar os tímpanos com músicas que eu gosto resolve o problema. Em geral isso só me protege temporariamente de tropeçar mais uma vez em obstáculos que surgem e me espetam. Me sinto frágil. Me transformo no meu próprio balãozinho. É, é isso. Eu sou o balãozinho.
Talvez no sentido figurado.
Mas possivelmente no sentido real.

Hoje mandei uma mensagem animada de bom dia para a minha mãe, e ela me disse:
– Fica sempre assim, feliz, porque a vida fica mais leve. Não deixe que estourem.

Ela sabe da metáfora do balãozinho, claro.
É a minha mãe. Minha melhor amiga. A quem eu recorro a cada desespero ou felicidade. É a pessoa que durante o dia me escuta e, perto da meia-noite, liga para o meu marido preocupada por eu não responder o telefone. Ela só quer saber se eu melhorei.
Ela é incrível.

Ok, enfim, voltemos.
Respondi:
– Já me desviei de duas situações hoje que podiam estourar meu balão!

É como aquelas brincadeiras de cuidar do ovo como se fosse algo precioso, sabe? Talvez eu devesse trocar a metáfora do balão pro ovo, porque o balão não faz muita sujeira quando explode. O ovo faz uma meleca danada e, se não limpamos direito, lembramos dele o resto da semana.
Fica impregnado no ar. Na gente. Martelando nossa cabeça: você deixou o ovo quebrar, deixou o ovo quebrar. De novo. Deixou. O. Ovo. Quebrar.

Mas eu acho o balão mais simpático.

Aprendi que preciso cuidar da minha motivação para me manter sempre pra cima. É claro que sozinha jamais conseguiria: isso requer apoio familiar, apoio de amigos, meu próprio apoio e policiamento.

Como é difícil se manter em constante motivação quando parece que o mundo lá fora quer simplesmente jogar o seu balãozinho em um quarto repleto de porco espinhos. Eu sei o que alguns vão dizer: depende mais de você do que do outro permitir que o balão estoure.

(Donos da verdade utópica)

Eu diria que depende muito: quando estamos vulneráveis, é inevitável. Mesmo se blindando, as coisas acontecem.

(Eu não sou dona da verdade utópica. Pode ser diferente com você. Se descobrir como sobreviver aos espinhos diariamente sem se deixar um diazinho sequer abater… Me conta? Por favor?)

Elas nos atingem.
E dói. Machuca. Nos faz querer parar, nos recolher como animais feridos que precisam de um tempo para lamber as próprias feridas.

Via de regra, a gente volta. Estaca zero. Temos um estoque grande de balõezinhos. Tem dia que consigo, com uma vitória fora do comum, manter ele intacto. Longe de objetos pontiagudos. Mas tem momentos que simplesmente… Ah, acontece. Quem nunca, não é mesmo?

Um dia de cada vez.
Como diz meu pai: dorme, amanhã é um novo dia.
Hoje é.
E é sexta-feira!
É uma linda sexta-feira, por sinal.
Com balõezinhos cheios. Coloridos. Vibrantes. Ansiosos pela sobrevivência – e que ela dure o fim de semana.

Que o balãozinho de vocês sobreviva às adversidades. Que no dia de hoje você possa alimentar mais o gás hélio que os palitos de dente.

Se não der, tudo bem. Amanhã vai ser diferente.

Para não esquecer

Um ano. Exatamente um ano atrás e eu não consigo lembrar com muita nitidez do meu estado, mas sei que falar de 2017 para os meus pais é a maneira mais fácil de causar calafrios neles. Principalmente o meu pai, que sempre me diz que não quer me ver igual ele viu. Eu não consigo me enxergar pelos olhos dele, mas pelo tom de voz, talvez tenha uma breve noção de que não foi um período muito bom. Hoje parece tão distante.

Sei que minha vida se resumia a sair da cama e ir para o sofá. Eu não conseguia mais fazer os artesanatos que adoro, me irritava com uma facilidade tremenda, achava que todos estavam de alguma forma incomodados com a minha falta de emprego, quando na verdade estavam preocupados com a minha falta de saúde mental. Às vezes quando me pego dirigindo para vários lugares dentro da cidade consigo me lembrar de que há um ano eu não tinha coragem de dirigir. Era totalmente dependente da minha mãe ou do meu noivo.

Tinha medo. De tudo. De simplesmente existir. Já não me preocupava com a minha aparência, com o que eu vestia, não conseguia ler – exercício que tanto amo. Não conseguia me concentrar. Mal podia sentar e escrever, apenas alguns desabafos em um caderno velho já que não tinha forças para gritar o que estava no meu coração. Eu tinha medo de arriscar ao mesmo tempo em que já me culpava pelo fracasso. Não tinha noção de que o que eu vivia era uma doença.

É até engraçado pensar que eu vivi o pior momento da minha vida junto do melhor. Quando tudo parecia desmoronar, a mão que me segurava foi a mesma que tomou a decisão de caminhar de mãos dadas comigo até o fim. Estava perdida e ao mesmo tempo não. Estávamos loucos por decidirmos casar, e ao mesmo tempo tão sensatos. O ano de depressão foi também um ano de libertação. Mas eu só consegui ver isso depois.

E aqui estou, após um ano, recomposta porém ainda medicada, pensando em uma das histórias que a Monja Coen contou ontem na palestra que assisti. Ela disse: se algum amigo chegar e disser

– Olha, eu perdi tudo!
É preciso responder: – Que bom! Que maravilha! Porque você tem a oportunidade de conquistar tudo de novo.

Hoje olho para trás e só consigo dizer: obrigada, Deus! Por me cuidar mesmo quando eu mesma não me importava se estava protegida. O ano da minha virada foi 2017, pois embora dolorido por ter perdido amizades que nunca tive (exceto na minha imaginação), por ter perdido um emprego que na verdade nunca me foi garantido mas que eu amava, por ter perdido o brilho nos olhos e por ter sido esmurrada psicologicamente por pessoas próximas, eu me levantei. Levantei, e em meio a poeira que não me deixava enxergar um passo diante do meu nariz, eu tinha Ele como meu condutor principal.

Deus nunca deixou faltar luz nos caminhos em que passei. Mas Ele também nunca prometeu que esse mesmo caminho seria imune de pedregulhos. Pisei descalça nesse caminho de pedras, sangrei. No sentido figurativo. Desidratei de tanto chorar até que me faltaram as emoções. E pode apostar: sentir dor é bem melhor do que não sentir nada.

Então, um dia em que estava encharcando de lágrimas a roupa do meu noivo pela milésima vez, ele me disse:
– Agora você pode ser tudo o que você quiser.
E eu chorei mais. Porque as amarras estavam em mim, e não na situação. Eu travei meus pés onde já não poderia enraizar, e não ter raízes me deu mais medo ainda.

Querido ano de 2017, estou escrevendo esse texto para você com seis meses de atraso, mas esse tempo foi necessário para que eu compreendesse algumas coisas.

Obrigada! Você foi a minha grande oportunidade de me reconstruir enquanto pessoa. Ser humano. Me redescobrir como alguém que independe de rótulos. Não sou mais “a Ana do jornal” ou “a Ana da assessoria”. Em 2017 a dor me fez parir a felicidade de ser Ana Luiza Colombo Verzola.

Sorvete de uva ao creme com brigadeiro

Eu lembro que quando me sentia angustiada, em um dia ruim, o Beto que era o motorista do meu primeiro emprego sempre parava na primeira sorveteria que encontrava e comprava sorvete de massa pra mim. O sabor sempre era de uva ao creme com brigadeiro. E aquilo sempre me acalmava e me deixava feliz de alguma forma. Na época eu era uma foca bem distante da formação acadêmica que brincava de fotojornalismo. Entre uma pauta e outra, naquele dia ruim, que acumulava um monte de trabalho da faculdade, que eu achava que não ia dar conta, sempre arrumávamos uns trocos para afogar as mágoas em um sorvete de uva ao creme com brigadeiro.

Quando saí desse emprego e fui pra outro, era difícil sair para afogar as angústias assim, porque era um trabalho interno. Até que eu fiz a minha primeira prova de direção e reprovei naquilo que eu achava que sabia bem: a baliza. Voltei a pé para o estágio mas sem coragem de entrar e encarar as perguntas se tinha ido bem, se havia passado. Foi quando avistei uma sorveteria próxima dali: claro, pedi um sorvete de uva ao creme com brigadeiro. Chorava e tomava sorvete ao mesmo tempo, fazendo a maior lambança. Como sempre associei esse sorvete com um reconforto de que tudo ficaria bem, ficou.

E assim foi. Sempre que estava chateada com algo, eu procurava saída como se o sorvete fosse o grande segredo para que as nuvens escuras dessem lugar ao céu azul. Porque eu acreditava, era. E assim foi. Daí que hoje, 7 anos depois desse período, me deu uma vontade louca de tomar sorvete de uva ao creme com brigadeiro.

Porque se a vida amarga, a gente dá um jeito de adoçar.

Já vou indo, já vou indo!

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Um dia eu pensei que deveria escrever sobre o livro que marcou minha infância, justamente por ter sido o primeiro livro que li na escola. Chegou a hora. “Lúcia Já Vou Indo”, da Maria Heloísa Penteado, deve ter figurado em algum momento na vida de vocês. Essa é a história de uma lesminha que estava sempre atrasada porque ia devagarinho… Inho… Inho… Até hoje eu brinco com a minha mãe, chamando-a de Lúcia quando faz as coisas muito devagar.

Na verdade, eu me apaixonei pela Lúcia e seu jeito todo lento e molenga porque também me identifiquei com a história. Claro que, criança, eu apenas fantasiei entre as ilustrações da própria Maria Heloísa sobre aquela figura que até para tropeçar na Maria Redonda, a pedra, demorava uma eternidade. Mas se você está pensando que Lúcia-Já-Vou-Indo fala mais sobre impaciência, está enganado. Foi relendo essa história um ano atrás que me dei conta que a grande lição de Lúcia, nada mais é do que nos ensinar sobre compreensão, inclusão e respeito ao tempo do outro (e ao nosso tempo principalmente).

Criamos uma grande expectativa em relação ao tempo: aguardamos com ansiedade os 18, queremos logo tirar a carteira de motorista. É preciso decidir o que fazer da vida aos 17 anos. O quê? Você não passou no vestibular? Já está na hora de começar a namorar. E quando vocês vão casar? De repente, vislumbramos uma vida estável aos 30. Casou? Precisa ter filho logo, não vai querer ser uma mãe velha. Tá doida de começar outra faculdade? Se formou e não conseguiu um emprego ainda? De repente topamos com a frustração de não alcançar todas as expectativas que os outros plantam em nós.

A semente é depositada em nossa vida, mas somos nós os responsáveis por regar essa pressão sobre o que construímos ao longo dos anos. Queria eu ter dado mais ouvido para Lúcia lá atrás. Mas é que… Levou tempo para que eu amadurecesse a compreensão dessa história. O meu tempo, nem muito e nem pouco. Foi o tempo suficiente. A cobrança do tempo do outro é um veneninho que age no mesmo timing da Lúcia: devagarinho. Mas é letal. A frustração lá na frente abre portas terríveis para a nossa existência e auto-estima.

Quando as vespas resolvem que, já que a Lúcia perde as festas porque está sempre atrasadinha, mesmo se esforçando, vão fazer uma festa na casa dela… O meu coração simplesmente transborda por eu enxergar a vespinha em tantos amigos acelerados. Cada personagem tem um rosto diferente para mim, inclusive quando me olho no espelho. Quantas vezes estamos com vontade de mover montanhas aceleradíssimos? E os dias em que temos mais dificuldade para entender algo? Foram anos para que eu resolvesse aprender outra língua enquanto meus amigos já eram exímios poliglotas. Mas tudo bem.

Nesse meio tempo eu aprendi a pintar, a cozinhar e finalmente a fazer crochê. “Ah mas isso não faz a diferença no mercado de trabalho”. De fato, talvez não faça. Mas se você soubesse o quanto me faz bem dedicar um tempinho para projetos que eu gosto, você entenderia. Por que não tenta também? Não tem nada de errado nisso. Só que demorou 26 anos para eu perceber que a vida não é uma competição. E que a beleza está em nosso desenvolvimento único: somos diferentes, e o respeito a essas diferenças deveria ter feito sentido lá atrás. Que bom que fez agora! Não somente pelo respeito ao outro, mas pelo respeito que devemos ter a nós mesmos.

Falar menos, ouvir mais, observar ainda mais. Apreciar. Perceber o tempo. Quantas vezes você já falou “nossa, mas o tempo está voando!”. De fato, ele voa quando não nos atentamos ao que estamos fazendo com ele. Aprendi à tempo que na vida, o importante é ser Lúcia. Devagar, mas nunca estagnada no mesmo lugar.

Opinião alheia não paga as minhas contas!

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Enfrentar nossos próprios medos é um exercício diário e muito árduo, se querem realmente saber. Até escrever sobre eles me assusta, porque antes mesmo de enfrentá-los é preciso admiti-los. E admitir fraqueza é sempre dolorido para o ego. Me questionei o motivo disso tudo, fiquei tempos e tempos refletindo sobre o que me amedronta. Quase sempre caio na mesma cilada de: o que os outros vão pensar. Claro, esse medo não nasceu agora. O parto foi feito há tempos, às escuras, como se fosse uma gravidez indesejada. Mas esse filho não foi para a adoção. Pelo contrário, rebelou-se quando viu que era ignorado na própria morada.

O medo do outro é o que mais me assombra. Isso porque além do medo da negativa alheia, eu criei uma espécie de vergonha pelo que eu era. E, bem, exatamente o que eu era? Ou melhor, o que eu sou? A insegurança é um abraço frio diante das nossas conquistas diárias. Não adiantava eu ser uma boa pessoa, se eu não fosse bem-sucedida. O que seria, então, sucesso? Sucesso não é ser feliz? Desde quando colocar a felicidade profissional acima da felicidade pessoal que já existe demandava tanta importância assim?

Oras, eu já tinha presenciado pessoas se esconderem na casca do profissionalismo para fugirem das dores da vida pessoal. Varrendo para debaixo do tapete aquilo que motivou esse texto aqui… O medo. Esses dias uma amiga me disse, “você não deixou de viver”. Na minha cabeça, eu havia deixado. Embora meu corpo dissesse o contrário, de que a minha vida estava em constante movimento. Só meio fora de órbita porque sempre dei demasiada importância para a famigerada “vida profissional”. Mas para quem eu devia satisfação, se não para minha própria existência?

Para quê maquiar uma vida para os outros ainda assim encontrarem motivos para me deixar para baixo? A língua humana é ferina. Deixar-nos atingir pelo que ela profere, depende de nós. Claro, nem sempre conseguimos filtrar e evitar que os comentários nos atinjam. Mas ter noção de que eles não nos representam é um bom exercício para começar a dialogar com os medos.

E você, qual é o seu?

Gratidão

Depois de semanas com esse texto indo e vindo na minha mente, eu finalmente sentei para escrevê-lo.

“Vamos marcar alguma coisa!”, sempre dizíamos. Claro, para não fugir à regra, esses encontros nunca davam certo. Era mais desafiador reunir os amigos em um dia em que todos poderiam estar presentes do que percorrer uma maratona completa. Mas sem menos esperar um dia mandei recado de que faria um almoço em casa. Eram dias sombrios, não vou mentir. Sair de casa parecia um risco tremendo. E justamente naquele dia, deu certo. Assim, como diria o Chaves, sem querer querendo.

Quando me viu, ela não hesitou em dizer que se preocupava mais comigo que com nosso outro amigo que também estava em maus lençóis. Logo ela, que estava passando por um daqueles momentos que você sequer consegue mensurar a dor. Me assustei, claro. Imagina só alguém te falar isso sem que eu tenha mencionado qualquer dificuldade. Não demorou a dizer: o Espírito Santo está me falando que você precisa parar de procurar. É hora de parar e se recolher. Você precisa olhar para dentro e se ouvir mais. Há meses sem nos encontrarmos, ela simplesmente sabia.

Desde então não passo um único dia sem lembrar dessas palavras e, quando menos espero, me deparo com essa transformação ocasionada pelo simples exercício de observação. Logo eu, que vivia sem tempo para sequer respirar. Que me afundava em trabalho, trabalho e trabalho. Logo eu, que achava que estava tudo bem. Foi preciso uma pausa brusca da vida para repensar a importância das coisas na minha vã existência. Eu não percebia que estava quebrada e precisava me consertar, mas ela mesmo estando longe, percebeu.

A pausa foi necessária para que eu pudesse reconhecer a mão estendida de onde eu menos esperava – ou merecia. De pessoas que sequer imaginava. Serviu também para me mostrar que, embora eu seja esse tipo de ser humano que se entrega às relações de amizade, muitas vezes a gente se decepciona com atitudes que não esperávamos. Mas bastou para refletir também que ninguém age do mesmo modo que eu agiria. Isso não é um defeito, mas passível de compreensão. É preciso reaprender todos os dias.

Desde a orientação de “pare de procurar”, eu tenho encontrado. Venho me reencontrando dia após dia, pedaço por pedaço, me reconstruindo. É verdade que o mundo não para a fim de que a gente recolha nossos cacos. Mas eu aprendi que é preciso dizer ao mundo que mesmo sem parar, é preciso desacelerar. Olhar para dentro tem me feito entender mais sobre as outras pessoas do que eu mesma. Naquele dia, depois de tanta prosa boa adiada por tanto tempo, ela ainda me disse: Deus me alertou que eu precisava vir.

Ele realmente nos toca através das pessoas. Hoje eu digo porque naquele dia, sem mais nem menos, tudo conspirou para que eu ouvisse o recado. Que eu parasse e me consertasse antes de seguir em frente.

Obrigada.

Saber o que e quando ‘compartilhar’ não se restringe ao Facebook

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Daí que me deparei com um texto nessa internet da vida em que uma mãe falava que não iria ensinar o filho a compartilhar. Que as pedras voem! Isso, ateiem fogo na mãe! Que horror, vai criar uma criança egoísta! Absurdo. Eu não acredito nisso! Ok, ok, ok. Acalmou? Então tá. Essa mesma mãe dá um exemplo no texto dizendo que algumas crianças desconhecidas no parque pararam o seu filho para pegar um brinquedo que ele estava carregando e ele se sentiu pouco à vontade com a situação. Aí ela compara com a nossa atitude enquanto adultos:

“Se eu, uma adulta, entrar no parque comendo um sanduíche, eu sou obrigada a compartilhar meu sanduíche com estranhos no parque? Não! Algum adulto bem-educado, um estranho, estenderia a mão para servir-se do meu sanduíche e ficaria irritado caso eu o puxasse para longe? Não, de novo. Então, realmente, enquanto vocês estão me olhando feio, presumivelmente pensando que meu filho e eu somos rudes, de quem são os modos faltando aqui?“, escreveu Alanya Kolberg no Facebook.

Bom, se eu estou andando no parque com um caderno, um celular ou um tablet e um estranho me pede para usar… Dificilmente eu vou falar “tá bom”. Certo?

É estranho. E para as crianças considero pertinente ensinar e explicar que ela compartilha, sim, mas com quem ela se sentir à vontade para tal. Ela não é obrigada a compartilhar com quem não quer, não conhece, não tem convívio só porque vão olhar com cara feia ou dizer que é “rude”. Somos assolados sempre pelo poder da desconfiança, logicamente e principalmente quando adultos. Mas a verdade é que a gente compartilha, sim, mas com aqueles que sentimos um mínimo de proximidade. Ensinam aos pequenos que “saibam dividir”. Ok. Mas isso é realmente feito da maneira correta? Aliás, existe maneira correta? Só levantei a discussão porque isso me fez pensar. Não vou cagar regra, porque quem sou eu na fila do pão para dizer o que é certo e o que é errado. Só digo que concordo com a afirmação da mãe. E tudo isso me fez também relembrar.

Na hora do recreio

Quando eu era pequena, levava sempre um pacote de bolacha para o recreio. Durante esse breve período de diversão, eu sentava com outros amiguinhos atrás da biblioteca da escola e ali a gente compartilhava tanto da minha bolacha quanto do lanchinho que outros levavam de casa. Era uma espécie de piquenique, e mesmo quem não levava lanche no dia podia participar. Fazíamos isso espontaneamente porque gostávamos uns dos outros. Minha mãe nunca disse: olha, você TEM que compartilhar suas bolachas na escola. Isso foi percepção minha.

No entanto, tinham dois meninos da turma que sempre causavam confusão, e não foi uma nem duas vezes que antes de eu chegar no nosso cantinho de passar o recreio, eles me paravam, faziam cócegas e me imobilizavam para tomar de mim o meu lanche. Um dia resisti e eles levaram o assunto para a professora, que me repreendeu. Disse que eu precisava aprender a compartilhar. Não, eu não era obrigada a compartilhar nada com eles porque eu NÃO ME SENTIA À VONTADE PARA TAL. E não me sentia egoísta por isso.

Mas a professora sabia de todo o contexto? Não. Todo o cuidado é pouco na hora de apontar dedos. Era certo compartilhar com quem eu não queria e me fazia mal? Da mesma forma que ensinamos as crianças a não aceitarem coisas de estranhos, é preciso também conscientizar para não ceder a pedidos ou pressões de estranhos porque é simplesmente necessário “dividir”. Mesmo que sejam outras crianças. Acredito que o respeito às decisões e ao espaço do outro deve ser ensinado desde cedo, já que esse é um tema de muitas indiretas nas redes sociais hoje! Aprender a lidar com o “não” também é uma forma de aprendizado importante. A compreensão necessária é a de que existem formas e formas de partilha. A explicação e exemplificação disso se faz pertinente, sim.

O assunto mais falado da semana

Aliás, vou até retomar aqui um assunto que está inclusive desgastado na internet, mas pode também servir de exemplo: uma criança me mostrou na semana passada uma mensagem que recebeu no celular (já começo achando errado aí de criança ter celular, mas beleza) que dizia que um dos desafios do tal joguinho da Baleia Azul era levar bala envenenada em três escolas e dar para outras crianças. O menino na mensagem pedia desculpas às mães e pais daquelas crianças, mas que aquela atitude era necessária porque ele precisava continuar com as “missões” ou morreria.

Sem saber, alguém poderia dizer: olha que atitude louvável, essa criança compartilhando bala com quem não conhece. Muito bonitinho. Sabendo disso, como reagir a essa atitude? Volto ao que falei acima: existem formas e formas de partilha. A explicação e exemplificação disso se faz pertinente, sim. E debater sempre é saudável. 🙂