“Parece autobiográfico, mas não é”

Começa hoje o Festival de Shows Autorais Cottonet-Clube em Maringá, com cinco atrações na Imageprogramação do evento. Se apresenta nesta noite o grupo Urubatã, de Sorocaba (SP). Amanhã quem faz o show por aqui é o londrinense Tonho Costa, com quem conversei hoje por telefone. Antônio apresenta em Maringá seu primeiro trabalho como cantor e compositor, baseado nas vivências que ele classifica como o “próprio quintal” de casa. São memórias que não tornam o trabalho autobiográfico – ele afirma que não raro há a identificação do público com as letras. Buscando inspiração nas próprias raízes, revivendo Minas Gerais, o interior de São Paulo, o Rio de Janeiro e Londrina, ele fala sobre a experiência do trabalho autoral, identidade cultural de cidades do interior e referências que o tornaram o músico que é hoje.

Antonio, “Universo Quintal” é o seu primeiro trabalho autoral. O que contribuiu para você decidir trabalhar em algo só teu?
É o começo de uma nova trajetória, era uma experiência que nunca tinha passado. Passei a vida fazendo arranjo dos outros. Agora tem uma nova abertura, uma nova perspectiva. A dificuldade é maior mas os horizontes são bem maiores também. A aceitação [do público] é um agravante, depende do estilo que você está fazendo. Como eu trabalho com MPB, é uma dificuldade que realmente existe. Uma questão de aprimorar o teu trabalho. É uma dificuldade que vai exigir um esforço maior teu.

Você passou um tempo no Rio de Janeiro estudando música e voltou para Londrina. Em 1998 o produtor Téo Lima esteve aí e perguntou qual era a música de Londrina. Hoje você consegue responder essa pergunta?
Ainda não. Era uma questão da identidade cultural, da cidade e da nossa própria região norte. Pelo menos a nossa região virou um centro de produção de música sertaneja, mas essa música não é a nossa identidade. Não quero aceitar como sendo a identidade da terra em que nasci. A minha família é formada de mineiros, vieram de Minas Gerais, do interior de São paulo, essa base me influenciou um pouco. Mesmo assim fica difícil. Londrina é uma coisa mais urbana, tem a coisa do caipira, mas está mais urbana hoje em dia. Continuo sem saber essa identidade. Tem uma pluralidade muito grande na região, tanto Londrina quanto Maringá, e como toda cidade brasileira, sofre com as questões da mídia de massa. Divulgação de músicas, essa coisa de novela.

Seu avô em Minas Gerais participava da Folia de Reis. Você chegou a ser folião? Esse contato te influenciou de alguma forma?
Não cheguei a ser folião. Mas víamos a alegria dele em contar, e quando a gente viu a folia, de tanto o meu avô contar, eu me senti parte daquilo. Eu abro o show fazendo uma saudação, a mesma que a Folia de Reis faz na hora de entrar em uma casa. Tem essa coisa de respeito, se você não abre a porta, a folia não entra, não insiste. Mas as músicas não são de Folia de Reis, e sim a estrutura que remete a isso, é uma contação de história. No final do show eu agradeço também, igual os foliões fazem quando vão para outra casa. Parece autobiográfico, mas não é. O público se identifica e isso dá uma dimensão maior para o trabalho.

Você já participou do Femucic com duas composições. Como ficou sabendo do Festival de Shows Autorais?
Através das redes sociais. Alguns amigos trabalham aí em Maringá e começaram a compartilhar.

E como foi o primeiro contato que fizeram para te avisar que você era um dos selecionados?
Primeiro o Paulinho Schoffen ligou na minha casa, fiquei super feliz! Depois fui mandando e-mail, trocando e-mails. Quando encontramos um festival como esse, que te dá a oportunidade de mostrar o show inteiro em um teatro como o Calil Haddad, com apoio da Funarte, é algo maravilhoso.

Na primeira conversa que tive com o Paulinho ele comentou que alguns requisitos do próprio festival era que o músico soubesse trabalhar sua própria imagem. Com a apresentação do seu trabalho, o que você acha que influenciou na decisão final dessa seleção?
Acho que a qualidade da gravação do arranjo da minha música. Eu não olho como um trabalho regional, pode circular por todo o Brasil e todo o mundo. Acho que isso foi um fator relevante. É um show amarrado, o texto, a escolha das músicas. Quero que as pessoas sintam que estão saboreando uma história. Que quem participar do evento saia falando daquela criação, que tenha uma idenficação com o público.

Quem quiser conhecer mais o trabalho do Tonho Costa: www.tonhocosta.com.br

O álbum “Universo Quintal” é composto por 12 músicas. O repertório do show agrega ainda as canções “O Sapato”, “Quando eu Dormia Bem” e “Essa Nova”.

A banda que se apresenta no show é formada por Tonho Costa (voz e violão), Bruno Cotrim (bateria), Kleber Vailant (Guitarra), Isaias Santos (contrabaixo) e Duda de Souza (percussão).

Festival de Shows Autorais Cottonet-Clube:

De 29 de agosto a 1º de setembro no Teatro Calil Haddad, às 20h30
Entrada franca

Intimidade do lar, íntimos do confronto

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Os movimentos são extremamente calculados, respeitando as batidas da música que nos carrega ao próprio palco, dançando a rotina destroçada. O menino brinca com uma bola, a mãe serve a janta e o pai lê jornal – aparentemente uma reunião normal, como acontece na maioria das casas. A coreografia é precisa e leve, e se repete em momentos esparsos em “Histórias de Família”, espetáculo da companhia Amok, do Rio de Janeiro, que encerra a “Trilogia da Guerra”, iniciada em 2008 e formada também por “O Dragão” e “Kabul” – este último infelizmente não se fez presente no palco da 2ª Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá. O elenco é formado pelos atores Bruce Araújo, Christiane Góis, Rosana Barros e Stephane Brodt, e a direção fica a cargo de Ana Teixeira e Brodt.

Uma maneira distinta de registrar a educação e a convivência. As bonecas ao fundo dão tom de uma infância devastada, que nos permite descobrir pouco a pouco o motivo já evidente: a guerra. Os reflexos são presenciados nas ações que chocam a cada história de família ali vivenciada – dizer que o espetáculo foi meramente encenado não daria total crédito à força de cada cena, de cada grito e cada momento de alívio ocasionado pela trilha sonora ambientada – temos um momento de contato com a Iugoslávia já destruída pelo combate. Os aproximados 100 minutos de peça não são domados pela total tensão da violência, pelo contrário. Reserva momentos de riso contido e gargalhadas permitidas. Configura-se em um conta-gotas de experimentação, onde compartilhamos dor, angústia e momentos hilários protagonizados por famílias areadas.

É engraçado observar como uma cena de sexo causa mais estranhamento ao público que as cenas de violência – é notável como somos mais passivos à destruição. O conforto com as cenas de brutalidade é tanto que a dança que indica o prelúdio da morte protagonizada pelo ator Bruce Araújo torna o momento do assassinato – dos próprios pais – uma ocasião regada a risos e sorrisos tortos. “Ele vai fazer isso mesmo?”. Os atores reconstroem no palco as consequências que uma vivência entremeada pela guerra ocasiona no lar, e de que forma a hierarquia doméstica é retratada, sempre colocando a mulher como o ponto fraco da estrutura familiar.
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O pai desconta o ódio incontido na mãe e no filho. O filho aprende com o pai que pode também descontar na mãe, porque é mulher – ele mesmo profere, “mulher é mais fraca”. Mesmo ensinando a ação como verdade, o pai torna a repreendê-lo. A mãe submissa direciona os acontecimentos, preenche frases vazias como se ansiasse por preencher o vazio permanente na própria família. Por fim, trata uma refugiada da guerra como o próprio cachorro – a quem pode descontar as infâmias vivenciadas no ambiente. O cenário contempla as referências de um lar, com delimitação de paredes, televisão, uma janela. Ao fundo, um quadro negro perfurado por balas que tornam a existência da guerra mais presente. Bonecos mutilados em cadeiras alinhadas. O horror toma forma humana.

O destino dessas famílias encara a morte de perto, e quem sobrevive convive com as lembranças de marcas reais à própria pele, à própria sanidade. Os recortes de iluminação dramatizam falas proferidas com fatalidade. Ainda há um momento de musicalidade dos próprios atores. O conjunto do espetáculo funciona muito bem e faz refletir. Não fossem alguns integrantes da plateia, talvez não acostumados com ambientes teatrais ou mesmo se sentindo parte do espetáculo a ponto de contarem com uma educação fragmentada, evitam qualquer possibilidade de silêncio durante a apresentação da companhia Amok. Ignorando os olhares constrangidos dos que clamavam por um momento sem ruído diante de uma obra que marcava também a comemoração de aniversário do projeto Convite ao Teatro.

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Fotos: Rafael Saes

Vincent e o drama incompleto

Foto: Camila BianchiO som de chuva acalenta nossos ouvidos e já faz prever uma tempestade protagonizada pela loucura de Vincent Willem Van Gogh. O espetáculo de mesmo nome foi escrito, dirigido e interpretado pelo paulista Alexandre Ferreira, da Companhia Práxis, e apresentado no último fim de semana na 2ª Mostra de Teatro Contemporâneo em Maringá. Um grito irrompe o teatro, rasgando o resquício de apreciação sonora. Surge Vincent no palco, a luz âmbar tornando o ambiente intimista, casando com a cenografia simples, com uma cadeira – que indica a tela “A Cadeira”, um cavalete coberto, uma mesa com uma garrafa com conteúdo provavelmente etílico e um castiçal que será aceso. Algo intriga um pouco acima da cabeça do personagem: uma gaiola fechada e vazia.

Ele está enrolado em um pano vermelho – que em dado momento aparenta ser um manto, como forma de louvor à própria obra, outrora a impressão que se tem é de uma capa heroica -, depois de um tempo transforma-se até mesmo uma saia que veste o personagem que, apesar de toda a angústia perpetuada nas ações, dança a vida.

– Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida! – Vincent era um artista convicto de que o que fazia era grandioso, mas que buscava a aceitação que não veio de pronto. O espetáculo é embasado pelo livro “Cartas a Théo” – que reúne 200 cartas de 625 escritas até o dia da morte trágica do pintor. Na abertura da obra, já prevemos o constante drama: “Hoje Van Gogh é cultuado. Mas enquanto vivo, esse pintor de sóis silenciosos e girassóis de ouro vendeu apenas um quadro. Nas cartas ao irmão Théo, todo o relato de seu desespero.”

Ele fala das dificuldades ao registrar o homem trabalhador, e balbucia as belezas existentes diante dos anônimos que cruzamos todos os dias. Isso não é privilégio de outro século. Ainda hoje há quem explore o belo no excluído. Então surgem na tela ao fundo “Os Comedores de Batatas”. Van Gogh não pintava os excluídos por solidariedade – ele era um deles, escravizado pela solidão, divagando pela loucura e em busca incessante por compreensão, que somente o irmão quatro anos mais novo, Theodore, lhe concedeu. E é nesse ponto que lembrei um trecho de Tom Jobim: “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Ânsia confirmada em uma das cartas.

O ator Alexandre Ferreira passa boa parte dos 50 minutos dialogando com as cartas, como se tivéssemos acesso aos pensamentos perturbados do pintor. Quando vai falar com a mãe, olha profundamente para a plateia. Quando relembra os tempos de criança, abaixa-se atrás da cadeira que compõe o cenário, como se fosse um esconderijo de tempos envoltos pela memória infantil. Bebemos um pouco da loucura tão lúcida de um homem que só queria nos brindar com sua arte. A sincronia de dezenas de telas ao som de “One”, cover do Metallica que a banda Apocalyptica fez, absorve a atenção para aquele mundo ali representado em cores.

Foto: Camila Bianchi
O monólogo por alguns instantes nos dispersa e se mostra contraditório, como o próprio personagem requer, mas não com a intensidade necessária. A proposta era debruçar sobre a vida de um artista e apresentar um pouco do ser humano e do pintor – o que é de uma complicação tamanha – talvez por isso tenha saído do teatro com uma sensação incompleta – aí ouso dizer que me apossei das explosões sentimentais incompletas de Vincent. Mas ora, quem nunca sentiu esse vazio antes? O mesmo vazio apresentado na gaiola fechada. O pássaro que sonha voar, mas se sente acomodado e grato com o que tem. Envolver-se na alma de Van Gogh é um grande salto. Um mergulho na própria intuição, na loucura materializada nas memórias transbordadas a seu único amigo, Théo. E nem mesmo pular em “Starry Night Over the Rhone” ao som de Apocalyptica em um cover de Nothing Else Matters, também do Metallica, poderia nos satisfazer.

Para ouvir: