Sem tabus em um ano (ou a vida inteira)

“Muitas pessoas estão se divertindo com o livro e se identificando com várias histórias”, diz Nádia

Autora do blog e do livro “Cem Homens Em Um Ano”, publicado pela editora Matrix, a jornalista Nádia Lapa sofreu julgamentos desnecessários quando resolveu que poderia ter 100 relações sexuais com homens diferentes em um ano e publicar isso em uma página pessoal sob o pseudônimo Letícia. Ler tantas agressões de quem ela sequer conhecia não interferiu em suas ações por um único motivo: “Eu tinha certeza de que não estava fazendo absolutamente nada de errado. Sou livre, faço sexo seguro e respeito meus parceiros”. Os e-mails positivos de quem se identificava com a causa que defendia – e ainda defende – é que deram força para continuar e chegar onde chegou.

Hoje Nádia dá conselhos a mulheres inseguras, ainda suporta comentários pitorescos e convites de encontros que passou a publicar em uma página só para as mensagens nonsense que recebe – o “Cem Homens Sem Noção”. Em entrevista originalmente publicada no jornal O Diário, ela fala sobre sexo, a repercussão do livro e a visão que a sociedade ainda tem de uma mulher completamente ciente dos próprios direitos e livre para fazer o que bem quiser entre quatro paredes.

Acredita que a forma como a pessoa lida com a própria sexualidade tenha ligação direta com a educação recebida em casa?

Com certeza. Não só em casa, obviamente. A escola e a mídia têm influência de peso, mas é nas relações familiares que se começa a aprender sobre sexo. Muitos pais adotam como “educação sexual” simplesmente ignorar que os filhos são seres sexuais, ou então fazem com que a criança sinta culpa e vergonha. Quando adultos, essas pessoas irão possivelmente apresentar algumas travas para se libertarem.

Como você analisa a repercussão do teu livro?

O retorno que recebo é de que muitas pessoas estão se divertindo com ele e se identificando com várias histórias.

Na página do ask.fm de “feminismo para principiantes” é possível observar várias mulheres tirando dúvidas e compreendendo um pouco mais do próprio papel da mulher na sociedade, entendendo e aceitando o próprio corpo e vontades. Essa busca é resultado do quê?

Acredito que todos nós – homens e mulheres – sentimos a necessidade de melhorar, e isso vem por meio do questionamento. Em relação às mulheres especificamente, somos desde cedo ensinadas a agirmos de maneiras que nós nem sabemos o motivo. Buscar o feminismo é resultado direto dessa inquietação.

Na sua opinião, o que ainda falta para que a sociedade aceite uma mulher livre?

Falta muito. A cada olhar mais apurado que dou, percebo como estamos atrasados em algumas discussões. Vivemos em uma sociedade sexista, em que se julga o caráter de uma mulher de acordo com a vida sexual dela; em que mulheres ainda ganham 70% do que os homens ganham exercendo a mesma função (e não existe independência sem respaldo financeiro); em que parceiros que matam suas mulheres são vistos como “homens que amam demais” ou coisa do tipo, como aconteceu recentemente no caso de Oscar Pistorius. A mulher ainda é vista como inferior. Temos de lutar juntos contra o sexismo. Todos nós seremos mais livres depois.

Com o lançamento do livro e com as frequentes discussões no blog sobre assuntos feministas, você espera ver que tipo de mudança na visão das pessoas que te acompanham?

Muita gente mudou, inclusive eu. No início do blog eu não falava sobre feminismo, ainda que as discussões recaíssem um pouco para esse lado. Tenho leitores e leitoras que se engajaram no feminismo a partir do Cem Homens. Foi um crescimento em conjunto e isso é muito bacana e enriquecedor.

Quais os tabus que você vê com frequência acerca do comportamento sexual feminino?

Incontáveis mulheres têm vergonha de falar sobre qualquer coisa em relação a sexo. Sequer conversam com as amigas sobre masturbação. Até o sexo oral em relacionamentos heterossexuais é tabu: a mulher acha que o sexo é para prazer do homem, nunca dela, e não demanda por mais cuidado por parte do parceiro. Se ainda estamos com esse problema básico, imagine se formos falar de assuntos mais difíceis, como fantasias sexuais ou relacionamento aberto.

Por que assumir a vida sexual e lidar com esse fato com naturalidade ainda choca?

Porque controlar a sexualidade de alguém é mais uma forma de controle. Pessoas livres e felizes contestam o estado das coisas e, por isso, temos uma educação muito moralista e conservadora. Quem tem poder não quer sair da posição em que se encontra. Assim, criou-se uma cultura em que não se pode fugir da linha.

Quando você passou a estudar o feminismo e quais consequências esse estudo gerou na sua vida?

Comecei a estudar de maneira voraz no ano passado. Tenho lido várias autoras estrangeiras. Estudar feminismo abriu minha mente e agora, com mais embasamento teórico, consigo enxergar outras nuances no tema, como a questão do racismo e do classismo. Hoje o feminismo precisa ser interseccional, isto é, lutar contra todas as formas de opressão. Meu interesse permanece sendo maior na sexualidade, mas nenhuma mulher será livre enquanto todas não formos.

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