A extorsão do Femucic

Foto: Paulo Matias

Foto: Paulo Matias

Está rolando em Maringá a 35ª edição do Femucic, Festival Sesc de Música Cidade Canção, tradicionalíssimo evento que reúne música de qualidade de todo o Brasil em um só palco e é oferecido gratuitamente à toda a comunidade. A minha programação de sexta-feira, junto de meus amigos, era essa: conhecer um pouco mais da música que está sendo feita por esse País e prestigiar o festival.

Mas engana-se quem vai ao Teatro Calil Haddad com a intenção de absorver cultura sem gastar um tostão. Não, não. Logo que chegamos, com a boa sorte de encontrar um local ao lado do teatro que estava bufando de gente (ainda bem!), cantei cedo demais a sorte. Mal abri a porta do carro e brotou – sim, BROTOU, um buraco no chão se abriu e surgiu um ser humano quase que entrando no meu carro antes mesmo que eu saísse.

– Ô dona, estamos cuidando dos carros aí. Tem que pagar antecipado, é R$ 10.

– Não tenho dinheiro não, moço – respondi.

– Se não tiver eu troco pra você, não tem problema – disse.

E para ele, de fato, não haveria problema mesmo. Na mão esquerda ele segurava um bolo de dinheiro, notas de R$ 2, R$ 5, R$ 10 e R$ 20 quase que saltando aos dedos daquele cidadão.

Sério mesmo? DEZ REAIS PARA DEIXAR O CARRO EM UM LOCAL PÚBLICO? Ver-go-nha resume isso. Uma VERGONHA! Bati o pé, fiquei revoltada e resolvi colocar o carro em outro canto, com o medo de deixar ali sem pagar e me expor e expor meus amigos a algum risco. Não, resolvi mudar de lugar. Vamos lá gente, todo mundo entra no carro e vamos caçar outra vaga.

– Não, não. Pra você então eu faço R$ 5 – resmungou.

Caríssimo flanelinha ordinário e vagabundo, nem dez pilas, nem cinco pilas. Isso que o senhor está fazendo é EXTORSÃO. Disse que não ia pagar e que ia achar outro local para deixar meu carro.

– Mas eu tô cuidando de toda a volta do Teatro, dona. Faz três dias que estamos aí cuidando dos carros.

Foda-se. Sexta-feira é o meu último dia de trabalho da semana, a semana que eu trabalhei diariamente sem forçar ninguém a me dar dinheiro e nem usar tom ameaçador para conseguir o que eu queria. Resumo da ópera: encontrei outro local, ainda que longe, para deixar o carro. Descemos e fomos conferir o Femucic, que está de parabéns. Excelentes apresentações, organização, com ótimas atrações oferecidas gratuitamente para a população – e incluo o cidadão que me abordou no início. Já que se deslocou até o Teatro Calil Haddad para exigir “dez pila” de cada um que ali estacionasse, porque não teve a iniciativa de se deslocar para ter acesso a um pouco mais de cultura? É de qualidade e é de graça.

Fiquei com receio de acontecer alguma coisa com o carro, comigo, mas felizmente ao final ele estava lá onde deixei, intacto. E os flanelinhas? Bom, ninguém estava mais ali quando o pessoal saiu. É, alguém tinha alguma dúvida que eles receberiam o dinheiro antecipadamente para ser um “incentivo” para que cuidassem com mais afinco dos veículos? Se mandaram. Todos. E sei que muitas das famílias que foram conferir a programação de ontem deram R$ 10 com medo de que algo acontecesse com o carro que deixaram ali, num espaço público.

Bom, e a polícia? – você pode me perguntar. Nenhum sinal de policiamento no local ontem, que lotou a parte de baixo do teatro que tem capacidade total para 797 pessoas – pelo menos metade estava por lá.

Não estou aqui para criticar o sistema educacional que esses homens cresceram e tiveram acesso ou o tipo de crescimento tiveram. Relatei a história como cidadã indignada com o que presenciei na noite de sexta-feira. Muitos se submeteram a pagar a segurança de um bem e da própria família. O motivo? Medo. Muita gente de bem na noite de ontem foi assaltada sem ser à mão armada. A quantas ações nos submetemos diariamente por medo da reação do outro contra nós mesmos e contra pessoas que gostamos? Fica a reflexão.

Bom, quem quiser enfrentar o último dia de “trabalho” dos flanelinhas para conferir o último dia de apresentação do Femucic, fique à vontade. Apesar de, vale à pena. Até quando vai valer sair de casa sempre com receio? Não sei. Penso que a iniciativa da RPC TV de transmitir o festival pela internet veio a calhar.

A day in the life

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E aqui começa uma outra história, de uma magical mystery tour. Ir para um lugar a 1.066 km de distância de casa em um dia e voltar no outro, dito assim, quase que em voz alta, parece loucura. Mas para ver pela segunda o cara fantástico que todos nós sabemos que é sir James Paul McCartney vale qualquer distância. Ou qualquer custo que caiba no meu orçamento de jornalista.

Dia 1º de abril – rá! – me enrolei toda para comprar o ingresso. Tentei adquirir meia-entrada, preço de estudante, e consegui. No e-mail, a informação errada de que havia comprado um ingresso para Fortaleza e não Belo Horizonte me assustou e, na ânsia de ir para o lugar certo, cancelei a compra (que depois vi que era um erro de informação do site Ingresso.com, pois estava tudo ok). Bom, tentei comprar novamente. Ingressos para estudantes esgotados. E agora, José? E agora, Paul? Corri comprar uma inteira mesmo. E dane-se, já que é para afundar, que o Yellow Submarine me salve.

E aí foi aguardar. Consegui a compra com um quase-sucesso – claro que tentei reaver meu ingresso cancelado de meia-entrada, afinal, não me embananei por ser loira, foi um equívoco de informação direto na minha caixa de e-mail. Me senti completamente prejudicada pelo site, que não se esforçou muito em me dar um mínimo de atenção. Depois de alguns contatos e patinar muito no gelo, let it be. Vá para o raio que o parta, sir Ingresso.com! Depois desse perrenguinho inicial, esqueci que havia adquirido meu passaporte para lembranças incríveis que teria dali algum tempo.

Até que a primeira semana de maio chegou mais depressa que eu esperava, em especial o dia 3. E lá se vai a Ana e a Isa rumo à BH para ver o ex-beatle pela segunda vez depois de dois anos – um beijo 22 de novembro de 2010, você é extremamente especial no baú das minhas memórias. Revivi minha mochila da Company dos tempos de ensino médio para fazer uma mini-mala e embarcar de vez para Belo Horizonte, conhecer o que é que o Mineirão tem. Expectativas à mil, a ficha demorando para cair e quem caiu no final das contas foi a nossa conexão.

Cancelada. “Consigo encaixar vocês para um vôo amanhã às 7h25, tudo bem?”. Não estava tudo bem e não adiantou reivindicar direito algum ali no guichê. E a culpa nem era da moça, nós sabíamos. Desculpa a grosseria, moça! Mas é que você deu uma notícia que tremeu a base das nossas esperanças. E se perdêssemos Paul de vista? No words.

Demorou para pegar no sono. Não conseguia engolir a história mas… It’s just another day, e agora vai! Entramos no saguão de embarque e demos de cara com Nando Reis pegando o mesmo vôo à Curitiba. Divertido mesmo foi ver todo mundo fingindo que não conhecia todo aquele bailão do ruivão sentado ali na cadeira de costas para a parede. E ninguém ousaria sentar perto, pedir autógrafo ou foto. Bicho, eram 6 horas da matina, o cara tinha feito um show no dia anterior e você tem alguma dúvida de que ele estava cansado?

Eu e a Isa nos pusemos a debater a falta de noção de algumas pessoas de importunar os artistas. Puta falta de sacanagem. Puta falta de respeito. Orra! E ao falarmos isso, uma mulher de meia idade foi lá abrir a porteira para o inferno. Não tardou para que juntasse mais gente solicitando um minuto da atenção do ruivão, que agora nada mais era que um boneco de cera para posar para a foto. Ah gente, sério? Nada mais justo ele levantar e sair correndo para o banheiro se esconder, voltando uns 15 minutos depois com óculos escuros a postos. Pobre Nando Reis.

Mas aí fomos rumo à Curitiba e depois rumo à Beagá. Mas a história continua em outro texto…