A construção de um lar, o recomeço de uma vida

Da pauta: “Prefeitura reúne famílias para assinatura de contratos e entrega casas na segunda-feira. As 175 famílias contempladas pelo programa social Minha Casa, Minha Vida com unidades habitacionais no Jardim Oriental já assinaram os contratos com a Caixa Econômica Federal. As casas serão entregues em solenidade oficial marcada para segunda-feira, às 16h30, no bairro.”

(Como no jornal impresso as histórias são limitadas pelo espaço de publicação, extrapolo essa vivência por aqui)

Esta semana eu vi 175 famílias com um sentimento inexplicável, um brilho no olho diferente. De posse, de dignidade, de sonho alcançado e realizado. Não o sonho que encerra uma trajetória, mas que abre espaço para tantas outras oportunidades. São diversas vidas cruzadas que se assemelham em um ponto: o desejo de começar a viver.

As ruas íngremes do bairro já asfaltado são decorados com casas de tons pastéis. Amarelo, azul, verde, como se pintassem no novo local as cores do orgulho de finalmente ser reconhecido como cidadão brasileiro. O som alto com batida ritmada já acolhe o ambiente – por enquanto o funk soa como trilha sonora da alegria para o pessoal do jardim Oriental.

As vizinhas já compartilham experiências, gastos com a casa, receitas, problemas familiares. Juntos ali parecem formar uma nova grande família. As crianças já correm pelo bairro, jogam bola enquanto as ruas não demandam perigo e sentam no meio fio para brincar com os cachorros que também chegam com a mudança. Mudança essa de dois significados, de levar em um caminhão uma vida para habitar 42 metros quadrados e a mudança de renovação, de novo sentido para a vivência de todos os envolvidos.

Na prática
Na casa do mestre de obras Edivaldo Brito, de 45 anos, o lar representa um recomeço. Logo ele, que construiu ao longo da vida tantas outras casas para abrigar outras histórias, ainda não tinha um local para escrever sem medo algum o próprio destino. Brito morou durante 14 anos em um fundo de vale no Parque Laranjeiras, e durante todo esse tempo luta para que ele e a família toda tenham um lar para chamar de seu. A casa agora tem número, escritura e já começa a ser mobiliada. Aos poucos chegam os colchões, a pia, os sofás… E tudo vai tomando um ar familiar. O mestre de obras não acreditou quando foi avisado que seria contemplado, só quando a esposa foi chamada para levar a papelada é que se deu conta de que finalmente o sonho estava tomando forma. Ali ele vai dividir os próximos anos com a mulher Marinalva, os dois filhos que ultrapassam o pai na altura, a nora e o netinho.

Na família de Fabiana, nada de lar doce lar de propaganda de margarina. Sobrevivência difícil dela, do marido e da filha de 18 anos que tem síndrome do X frágil. “É como se ela tivesse a idade mental de 3 anos”, tenta explicar a mãe. Com a chave em mãos, ela não esconde o sorriso de satisfação. Se maquiou toda para a ocasião mesmo que o sol forte e mais de 30 graus marcados no termômetro pudessem borrar a vaidade. Fabiana não se importou e com toda a razão: é preciso comemorar. “Deve ser coisa de Deus. Eu vinha ver o espaço da obra antes mesmo de saber que seria contemplada”, vibra. Ela faz uns bicos de diarista para ajudar o marido, que é servente de pedreiro e trabalha sob demanda. Sem uma renda fixa, ela conta que nem dormia à noite pensando no dia 4, data em que deveria pagar o aluguel de R$ 300. “Arroz, feijão, mistura… Isso é o de menos flor, não gasta tanto. Mas o aluguel é certo e eu sempre busquei pagar certinho. Hoje, para mim, não existe mais dia 4!”, diz. Com o dinheiro, vai pagar uma psicopedagoga para auxiliar no tratamento da filha.

Na casa da operadora de caixa Priscila Grazielly da Silva Fernandes, 23, a notícia veio em boa hora, pois ela deveria sair até dezembro da casa onde morava de aluguel com os três filhos, o marido e a mãe. “Levei um susto quando nos avisaram. Eu pagava R$ 650 de aluguel, agora posso guardar dinheiro para a minha faculdade e a faculdade das crianças”, conta. A rua de casa que ela conhece por enquanto é numérica, rua 16037, mas é o endereço que ela tem a certeza que pode, junto de mais 174 famílias, finalmente começar a construir o futuro.