Para as 18 que restavam, a Esperança

Tranquilamente, como se não houvesse gente por perto, Tigrão e Neguinha jogavam de um lado para outro um pequeno camundongo desafortunado, que vez ou outra se fingia de morto a fim de alcançar a varanda de alguma casa e se safar. Em meio ao barro formado depois de uma pancada de chuva de verão, a ruína. Era difícil encarar uma realidade disforme, ouvir tanta discussão defronte às residências sem pintura, com pichações de nomes – dos possíveis donos? – nas paredes, sobre o que era certo e o que era errado e ver as mães se demorarem ao ajeitarem a mudança.

Foto: Ricardo Lopes

Foto: Ricardo Lopes

No poste que não iluminava a rua, porque não era de direito dos não proprietários, o dizer: “Deus é +”. Não vou negar que a situação de alguns não era verdadeiramente de extrema fragilidade: havia posses, pertences, investimentos que levantavam suspeitas – se não tem dinheiro para o aluguel, por que comprou uma geladeira nova? E aquela televisão? – mesmo assim, era difícil compreender. A trilha sonora podia anunciar um churrasco de comemoração, sertanejo alto, mas só abafaria o silêncio do desapego do que nunca fora, de fato, dos que ali se preparavam para uma nova etapa. Enquanto os prós digladiavam com os contras, eles se amontoavam aos poucos, juntavam dali um pouco de escárnio, um tico de infortúnio e um balaio cheio de humilhação.

A pequena Maria, de 3 anos, observava toda a movimentação com os olhos cabisbaixos. O cabelo cor de palha combinava com a bermuda amarela, suja de terra de tanto brincar no quintal que agora não sabia se teria novamente. “Ter” nunca foi uma designação muito conhecida de quem pouco entendia do mundo. Do lado de casa, uma boneca com a cara afundada na lama e uma galinha que depois de ciscar, também foi para o encaixotamento. A criança continuava observando, apoiada na cerca de madeira de sua altura, única proteção para ela, os quatro irmãos, o pai e a mãe. De repente, com a voz inocente, anunciou: “Estão levando o armário da mamãe…”. E tornou a se calar, enquanto colocavam no caminhão as bicicletas dos mais velhos. Encaixotando tantas existências ignoradas até que uma ação chamou para todos ali a atenção e ira de quem determinaria o futuro dos 18 restantes.

Não tiveram qualquer posicionamento de resistência – se “invasão” significa “entrada violenta ou arrogante”, a remoção foi de puro abatimento. Os olhares atentos condenavam. Sabiam que não estavam certos, mas era certo o que o destino lhes reservava? Estavam em idade apta para o trabalho árduo, ouvi de muita gente. Realmente: apesar de muitos terem menos de 30 anos, nos rostos as feições era de quem já carregava 50 aniversários de sofreguidão. Pensei um bocado, difícil não tomar partido nessas horas. Difícil encarar tal realidade de mãos atadas, com amordaças e tanta opinião pairando no ar.

Quem é que vai ouvir as lamentações? Do que precisam, do que lhes falta? Talvez um pouco de atenção, dignidade. Não falta muito para quem consegue sobreviver com R$ 300 por mês, quando o dinheiro chega. Complicado julgar uma situação quando se está do outro lado da ponte. Fácil é apontar o dedo quando se tem estudo, quando ainda resta uma oportunidade mais decente a seguir na vida. Era ironia, logo percebi: dos que mal tinham alcançado o ensino fundamental e pouco entendiam das letras, morariam a partir de então em uma escola desativada. Resolvi não tentar adivinhar quem tinha razão, mas acompanhei. Vi, de onde estava, o caminhão com a lataria reluzindo os raios de sol daquele fim de tarde ser fechado com os quatro cachorros da família empilhados com a mobília. Um olhar de interrogação dos que mal sabiam o que chamariam de lar dali em diante também acompanhavam.

O que seria agora? Correndo atrás da mudança, lá vinha ela, atrasada. Mas chegou a tempo, conseguiu se dependurar na traseira do veículo, e foi um corre-corre para acudi-la. Carlos Henrique, o filho mais velho, estendeu a mão desesperado. Mariazinha se viu aliviada quando junto do banco se juntou a toda família quem faltava. Ah, teimosa, essa Esperança. Quando se precisa, ela tarda, mas não falha.