A felicidade mora ao lado, mas o percurso é longo

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Gosto da vida ordinária. Daquela que pouca gente dá atenção por ser “comum demais”, e dentro da trivialidade é tão fantástica. Minha primeira quarta-feira de março começou com um desafio e tanto: cobrir um velório com cinco de seis vítimas de acidente de trânsito durante o feriado de Carnaval. Eu poderia tecer aqui a minha insatisfação por cobrir velórios, que é uma infeliz “modalidade” da minha profissão… Mas acho que eu não sou a única. Ninguém em sã consciência gosta de relatar assunto tão triste como a perda. Enfim, passei a tarde toda em Cianorte, cidade relativamente próxima a Maringá onde aconteceram as despedidas.

Nessa pequena estadia de algumas horas lá na capital da moda fui abençoada com a ajuda de muitas pessoas, que nunca me viram na vida, e mesmo assim dispensaram um pouquinho de atenção para me ajudarem a cumprir a minha missão. E nessa de conversar mais com a intenção de ouvir que falar, descobri tanta coisa bacana de gente que, sabe-se lá o motivo, acabou compartilhando comigo um fragmento da própria história. Assim, de graça. Hoje sinto uma necessidade imensa de pessoas que saibam ouvir: a maioria só sabe falar, falar, falar. Quando alguém se dispõe a simplesmente escutar, os detalhes se revelam. Levo a máxima de fazer para o outro o que gostaria que fizessem por mim também aqui.

E foi assim que sem querer descobri o drama do senhor Lizério*, que há 12 anos não vê o filho, que foi tentar a sorte nos Estados Unidos. O filho mais velho de dois meninos que teve deve voltar até o final do ano para o Brasil, e haja empolgação para rever a prole, além de conhecer a nora e os netos que nunca viu! Mais de uma década sabendo da família só pela voz, em telefonemas e algumas correspondências esporádicas com fotografias. O avô vai finalmente tocar o rostinho de cada criança e não mais fazer cafuné em imagens impressas. O rapaz fez a vida como mecânico por lá e conseguiu construir um bom patrimônio aqui. Seo Lizério, que antes de se aposentar colheu muito café nessa vida, jura pela sua bicicleta vermelha inseparável que o filho há de voltar para ficar para sempre.

Nessa de conhecer a nova família do filho, perguntei se a esposa era americana. Eis a surpresa: quando o filho foi para lá, dois anos depois esbarrou em uma família de Japurá, cidade do ladinho de Cianorte. Passou a frequentar a casa da família, acho que até mesmo por solidariedade a um brasileiro em uma vida erma, e foi aí que conheceu a loira que fez o coração parar: Daniele. Moça boa, de família, seo Lizério garante. Era professora aqui e também foi pra lá tentar a sorte com a família toda. Não demorou muito para o par se formar. “E precisou ir para tão longe para descobrir que a felicidade estava tão perto aqui”. Às vezes a vida tem dessas. Quem se arriscaria a explicar?

*Nome fictício

“(Coloque aqui uma frase hipócrita), porque é o seu dia!”

Flores. Parabéns. Um belo texto. Um sorriso no sinal, em meio ao trânsito, e que você quase acredita que é sincero. Para nos outros dias você levar buzinadas, ser chamada de barbeira e aturar piadas do nível: “Mulher no volante, perigo constante”.

Chegamos a mais um dia 8 de março. Dia Internacional das Mulheres. Data que advém de um 8 de março de 1857, esquecida e resgatada anos depois, mas que atualmente vale mais pelo cunho comercial – como tantas outras comemorações – do que qualquer outra simbologia. Antes achava até bonito, comovente, aquela entrega de rosa no meio da rua por alguém que você não conhecia – alguém contratado da loja ali do lado para dar às mulheres “o que elas realmente merecem”. Chamariz de vendas ou homenagem? De alguns anos para cá, a repulsa vem aumentando gradativamente. Entrar nas redes sociais só faz esse sentimento expandir.

– Nesse dia das mulheres não quero parabéns, quero presente.

Li isso na timeline há pouco. Desculpem-me vocês que acreditam que ter um dia “só nosso” muda nossa condição em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado. Se hoje é um dia que você deseja coisas e ganha “porque é o sexo frágil”, então vamos lá: desejo que esse respeito exacerbado no dia 8 de março perdure pelos próximos dias, dos próximos anos, para sempre, e não em um único dia.

Que o carinho demonstrado e a “gratidão” gritada sejam sinceros, sem a necessidade de uma data que alavanque esse comportamento. Que o reconhecimento seja de igual: quer mesmo validar as congratulações gratuitas e quase irresponsáveis do dia 8? Comece com pouco. Em casa, divida o trabalho. Não é porque a mulher carregou a prole 9 meses no ventre que a responsabilidade da educação e dos cuidados é unicamente dela. Os afazeres domésticos, POR FAVOR, não são “responsabilidade das mulheres”. Julgar uma mulher porque ela não sabe cozinhar, e que meninas devem ser “prendadas”, deveria estar bem longe de uma realidade ainda praticada.

Já vi tanto argumento idiota para “por as mulheres no seu devido lugar”, que me enoja. Não acredita?

– O corpo da mulher é menor porque foi anatomicamente criado para ela pilotar fogão.

Sim, eu já ouvi isso. Estamos em 2014. Nosso salário ainda é, em diversos setores, no mínimo R$ 300 menor que dos homens. A jornada de trabalho no caso de muitas é dupla: ou você acha que o serviço “de casa” não é pesado? Não conta como trabalho? Encontre uma explicação plausível para essa diferença salarial.

As incoerências não param por aí. Tenho um amigo que jura que cavalheirismo é uma forma de valorização. Que a mulher é delicada, não pode fazer força. Não se pode julgar competências pela aparência, por órgão sexual, será que é muito difícil compreender? Esse comportamento duzomi que querem “valorizar” a mulher é amplamente repetido especialmente hoje. Vejo ainda mensagens nesse dia que nos coloca como heroínas – aquelas que conseguem fazer tudo sem sair do salto, chegar em casa e ainda fazer as tarefas domésticas. “Porque vocês são mulheres! (E nós, que ganhamos mais que vocês, que assumimos um posto porque temos um pinto, vamos ficar aqui na sala tomando uma bera, beleza?)”. NÃO! É frágil mas tem superpoderes? Assumir esse posto de Mulher Maravilha não é em momento algum SAUDÁVEL para a mente e para o corpo. A sobrecarga não é necessária se existem formas de dividir as tarefas. Não é simples? Infelizmente, não.

8 de março de 2014. Tanto tempo se passou desde o fatídico dia em que queimaram operárias dentro de uma fábrica de tecido que protestavam para a melhoria no trabalho. O que mudou? As mulheres hoje vão para a rua protestar, sim. Vão para o trabalho. Bradam alto o próprio direito. Mas continuam sendo queimadas: pelo desrespeito, pela violência física, psicológica, pelo tom de pele, pela nossa postura, pelo tamanho de nossas roupas, pelo nosso comportamento. Destroem nossa autoestima, incendeiam silenciosamente nossos lares e nossas vidas com imposições misóginas. Calam nossa voz. Nosso corpo. Nossa autoestima.

Nossa vontade arde. Nosso desejo transborda, dói. Para que as condições melhorem. Da sociedade, onde homens e mulheres vivam a plenitude da igualdade de direitos. Que não olhem para nós com docilidade, mas com respeito e não mais com estranheza quando assumimos um posto antes “tomado pelo sexo masculino”.

Não há o que se comemorar no dia de hoje. Há de se preocupar, pois a batalha continua.