A bola colorida do tio Osvaldo

Domingo. Horas depois de ter levado picolé de abacaxi na casa da vó, ela telefona. Pergunto se ela está melhor, ela diz que está na mesma. Mas que tinha algo a dizer. Chama pela minha mãe, a segunda filha mais velha de cinco irmãos. Pergunto se a mãe pode ligar em minutos, pois está no banho. Não dava, o que ela tinha a dizer era urgente. Que o tio Osvaldo finalmente tinha encontrado paz. Como? Onde? Quando? Que horas? No fundo eu sabia que tantas perguntas já não faziam sentido.

Independente do pouco contato que tive com ele, depois de ouvir minha avó com a voz cansada anunciar a perda, fiquei pensativa. Engraçado o ciclo da vida, não é? Irônico até. Justo o tio, que tinha deixado tantas memórias – boas – aos que o tinham conhecido, morrera quase sem nenhuma. Se era alzheimer, ninguém se arriscou a afirmar. A última vez que a vózinha o vira – na semana passada – ele disse que se lembrava dela. Mesmo assim, perguntou seu nome. Talvez tenha perguntado não porque tinha esquecido, mas para ter certeza de que se lembraria nos próximos dias. E assim foi, com tanta gente, ao longo dos dias que se arrastavam cada vez mais em branco.

Uma das poucas memórias que tenho, lembro do tio junto da tia Tereza. Lembro também que ele e a tia tinham uma bola, dessas de circo, para abrandar as dores nas pernas. Achei divertido: sentavam-se no sofá e apoiavam as pernas na bola. Para o meu tamanho, a bola era enorme. Branca com algumas manchas coloridas, tons de rosa e azul. Encantei-me com a utilidade dada à bola. A forma como um brinquedo de criança era tão útil quando a idade batia à porta – e como esse gesto mantinha, inconscientemente, o espírito de criança por perto.

Mal pude me conter quando, ao me preparar para voltar a Maringá com a minha mãe naquela tarde, fui presenteada com a bolona. Aquela que eu mal conseguia abraçar. Logo eu, que nunca tinha assistido a espetáculos circenses, tinha agora um contato próximo com o encanto das bolas vendidas fora do picadeiro. A bola colorida do tio Osvaldo. Em casa, quis imitá-los: apoiava minhas perninhas, ainda que desajeitadas, sobre o brinquedo. Um dia resolvi dar utilidade infantil ao presente, que não durou muito – na primeira brincadeira, minha prima mais nova arremessou a bola contra um pézinho de pingo de ouro do quintal. Estourou. A representatividade de alegria e tristeza em um único brinquedo. A bola não era uma bola qualquer, mesmo minha tia dizendo que era só comprar outra. Tinha um significado só meu. Que eu compartilhava mesmo que distante com os tios que me fizeram tão feliz com gesto tão singelo.

E a vida hoje parece um pouco àquela bola. Teve seu tempo em terra, ofereceu tanto aos que tiveram contato. E foi-se, num instante mal calculado. Como se a vida também estourasse ao encostar-se a um galho mais pontiagudo. A fragilidade estava nas entrelinhas.

Tio, talvez o senhor em decorrência da doença não se lembrasse. Que a Ana é neta da Ivone, aquela que o senhor tentou não esquecer na semana passada. Talvez até por esvaziar a vida de lembranças, ela não fizesse mais sentido. A vida é feita de tantos “talvez”. Talvez até demais. Mas cá está, ainda que ressabiada das certezas, tenho uma incontestável: sua presença aqui entre nós não fora em vão. Os ensinamentos persistem, os gestos simples tornaram o senhor um grande homem. O senhor e todas as memórias que proporcionou não serão esquecidos.

Entre números, histórias e uma ligação

Segunda-feira. Pouco tempo depois de ter sentado na minha mesa o telefone tocou. “É a Ana Luiza que está falando?”. “Xiii… Lá vem bomba!”, pensei. “Sim”. “Meu nome é Denis, eu li a sua matéria sobre aquela família e queria saber se você poderia levar roupas e brinquedos para eles se eu deixasse aí”. Não pensei duas vezes, é claro que podia. Tive medo de reler a matéria editada porque achei que não tinha me doado 100% no conteúdo – apesar da história, me deparei com números infinitos para contextualizar. Algo que realmente tenho dificuldade. “Eu li o que você escreveu, sabe, a forma como o pai fala das meninas, como você colocou… Me identifiquei muito com o que eu li, porque eu também passei por isso com a minha família quando cheguei em Maringá. Hoje já nos estabilizamos, por isso queria ajudar. Você leva, então? Vou separar hoje com a minha esposa”. Com a voz já embargada só consegui afirmar mais uma vez que levaria. Pedi um telefone de contato, passei o endereço do jornal e agradeci. Desliguei o telefone não mais com os olhos transbordando, mas a minha própria alma. É inacreditável as situações proporcionadas pelo simples fato de tirar uma história do anonimato. Esse retorno é sempre o melhor reconhecimento que a profissão nos dá.

Foto: João Cláudio Fragoso

Não costumo dar muita bola às datas comemorativas. Hoje, dizem por aí, é o Dia Nacional do Jornalista. Contadores de histórias, ajudantes de pedreiro da própria história, até a mensagem que abril tinha também o “dia da verdade” recebi, em meio a alguns parabéns. Sabemos que a verdade é relativa. E a verdade é que eu escolhi fazer jornalismo com o intuito também de fugir dos números – embora verdade seja dita (e aqui é a exceção, não cabe a relatividade antes mencionada), impossível escapar das contas mesmo lidando com as palavras. Até somar a quantidade de caracteres para por na página, ainda que em processo automático, não deixa de ser matemática.

Me propus a fazer jornalismo para, dentre tantas estatísticas, encontrar uma história que valesse à pena ser contada. Partindo do princípio que todos têm alguma história para contar. E a minha última semana concentrou-se na missão de produzir uma matéria para a edição de domingo. Precisava achar uma família de baixa renda que vivesse em Maringá. Ah, fácil. Pega o carro, vai em algum bairro periférico e bate palma. Em vez de arriscar, quis fazer como manda o figurino e resolvi pedir indicação na Secretaria de Assistência Social e Cidadania daqui, indicação que me foi negada por entre inúmeros motivos, a alegação de que a assistente social quebraria com o juramento ético revelando histórias confidenciais. Claro que eu entendi, não é essa a nossa relação como jornalistas com as nossas fontes quando nos pedem sigilo também?

Mas e agora, José? E agora, Ana? Eis que meu editor comentou do Núcleo Papa João XXIII, que tem um projeto fantástico com famílias de baixa renda. Como não pensei nisso antes? Ainda bem que jornalismo se faz em equipe. Entrei em contato com o Núcleo, falei com uma das irmãs que assistem as famílias e ela me indicou outra irmã, a irmã Romilda que prontamente conseguiu um casal que conversasse comigo. Entrevista agendada para as 17h30 de quinta-feira – deveria ser esse horário porque por volta das 18h15 o rapaz deveria ir à aula.

Como a Lady Murphy é maravilhosa, resolveu me fazer companhia nesse dia. O motorista atrasou, o fotógrafo foi escalado para outra pauta, depois se perdeu e eu cheguei lá perto das 18h. Irmã Romilda me atendeu com um abraço caloroso como há tempos não recebia. Me chamou de linda e pediu desculpas, mas o casal não poderia mais dar a entrevista. Não pelo meu atraso, mas porque surgiu um outro compromisso. Esse é o momento onde um abismo se abre diante de você e a única vontade é saltar de cabeça. Mas com uma voz tranquila ela me chamou para entrar na casa das irmãs e sentar-me à mesa. “Tem problema se andarmos pelo bairro e, se por um acaso avistarmos uma família conversarmos com eles?”. De forma alguma!

Começamos a caminhar com o sol praticamente escondido. Romilda que agora já não era mais irmã para mim, era um anjo, comentou que fazia pouco tempo que estava em Maringá. Pelo sotaque, perguntei de onde ela viera. “Chapecó, Santa Catarina!”. O balé da vida irônica é sensacional. Cidade que guardo boas lembranças, onde sei que tenho pessoas muito queridas e especiais para mim, ainda que distantes. A afeição já era certa. Chamei-a de Barriga Verde e ela abraçou a minha cintura, como amigas de infância fariam ao se reencontrarem e caminharem em uma rua repleta de histórias.

Avistamos um rapaz sentado na varanda vendo a filha correr pelo quintal. Proposta explicada, aceitaram sem hesitar dar a entrevista, nos chamaram para entrar e a partir dali aquelas pessoas para mim tinham nome. Leandro logo se desculpou pelo chulé impregnando a sala, mas acabara de chegar do trabalho e consequentemente libertar os pés do aperto do sapato calçado desde as 7h. Não demorou para que eu percebesse que nessa vida não existem acasos. Como é de se esperar de uma foca, em 15 minutos de conversa já estava encantada pelo casal Leandro e Cristiane, as filhas Maríllia Gabriela, que me recebeu com um abraço e Melissa e as gatas Sofia e Olívia.

Ali o dizer que a felicidade se encontra nas coisas simples da vida faz todo o sentido. Depois de uma hora de conversa, Leandro que até tenta esconder os dentes devido a um problema odontológico, mas a felicidade o impede de estancar o sorriso, agradeceu. Agradeceu por eu ter dado a oportunidade de ele contar um pouco do que viveu com a esposa e as filhas. Porque o que eles têm hoje é fruto de muito esforço, e mostrar que conseguiram superar todo o momento ruim foi uma oportunidade sem tamanho.

Leandro, você ainda me pediu para agradecer às pessoas que te ajudaram nessa empreitada, e devido ao tamanho da página para a gigantesca lição de vida de vocês, não coube todo o texto. Mas aqui está: Marcelo Alexandre Canete, Arnaldo, Terezinha, Paulo, Afonso Slezinski, irmã Neri, irmã Romilda e a todos do Núcleo Papa João XXIII. Todo o agradecimento do mundo dessa família que se reinventa a todo instante e hoje constrói o alicerce em uma base sólida de força de vontade, bom humor e gratidão.

Ter conhecido vocês foi um grande presente.