“Envelhecer não é só fazer ruga, viu?”

Essa semana fui para as ruas com a missão de ouvir de 12 idosos o que a vida lhes ensinou. Essas falas formaram uma homenagem nas páginas do jornal publicado no dia 1º de outubro, Dia Mundial do Idoso. Incrível como a maioria cita a família como um eterno porto seguro e como o trabalho fez efeito nos anos que se seguiram – e para muitos, ainda realiza um efeito rejuvenescedor. Vovó na cadeira de balanço e vovô fumando cachimbo ficam somente no meu imaginário. Eles e elas estão aí, na correria do nosso próprio cotidiano, subindo nas conduções, entregando folhetos de candidatos, trabalhando de segurança, doméstica, balconista. Não param. Parar, para a terceira idade, é mais que ofensa.

Penso agora na simplicidade de dona Carmelita, que ao ser abordada disse que não poderia contribuir muito para a minha matéria, porque é analfabeta. Disse-lhe que em seus 72 anos de vida ela sabia muito mais que qualquer um da minha geração. Vivência é algo que escola e faculdade não compra, e ela é prova disso. Esbanjou sabedoria, humildade, ternura e apontou algo que hoje é raridade: educação e respeito. Em poucas palavras, me ensinou tanto. Emprestou-me um pouco do próprio olhar, resumiu em minutos a própria vida.

E a cada conversa observava como objetivos tão distintos convergem em realizações tão semelhantes. Orgulho dos filhos encaminhados, dos netos, dos bisnetos chegando. O 10º bisneto que Maria Aparecida já não lembrava o nome, mas estava feliz porque veio ao mundo. Ouvir da dona Nair que o fato de eu sentar ao seu lado no ponto de ônibus naquela tarde fez com que o astral dela mudasse, bastou. Nesse dia eu até cheguei sem forças em casa. Sem energia para contextualizar as histórias de 900 anos, se somasse todas as idades dos entrevistados. Mas esses empréstimos de tempo me transformaram de alguma maneira que talvez agora eu não saiba explicar.

Volto um pouco no meu dia. Quando fui, perto das 16h, saber da coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade, Regina, mais sobre os cursos oferecidos. Regina me recebeu com um abraço caloroso, como se já me conhecesse. Entre as explicações pontuadas, fugi do protocolo que tinha anotado em meu bloquinho e perguntei-lhe, quando ela disse que de velhice ela entendia, o que ela aprendeu com o tempo.

Aprendi que nada é para sempre. Nada é para sempre. Às vezes, quando se é jovem, se sofre desmensuradamente porque parece que aquela dor é para sempre, ou se é feliz de uma forma inconsequente porque se acredita que aquela felicidade, aquele vento que proporciona a felicidade, vai durar para sempre. Quando a gente entende, porque viu muitas coisas boas e ruins acabarem que nada é para sempre, você lida melhor com as duas coisas.

Quando vem algo muito ruim, você se diz que isso vai passar como outras coisas passaram. Está doendo muito, mas é preciso paciência porque vai doer menos. Quando vem algo muito bacana, quando você atinge um objetivo, você baixa um pouco a bola e coloca aquilo na medida porque você sabe que aquilo também não é para sempre. E por não ser para sempre, você tem que dar a aquele momento que você gostaria que fosse para sempre, permanência.

Você faz isso colocando nele intensidade, fazendo com que aquele momento seja tudo o que ele é capaz de ser. Ele tendo intensidade, fica em você, te constitui. Assim como uma dor muito intensa também vai te constituir. É preciso dar essa intensidade para dar permanência. A dor nos escapa essa possibilidade de diminuir a intensidade, às vezes nos chega de uma forma tão forte, avassaladora, e você não consegue fazer com que ela doa menos. Ela vai ficar, vai te constituir. Às vezes a gente se esquece que também pode fazer isso com os bons momentos. Achamos que é muito natural, normal, quase banal e não penso que aquilo pode acabar. Quando percebe, aquilo escorre, já foi. O momento de mãe e filha, o encontro com uma pessoa que você ama, papo entre amigos. Qualquer coisa. É preciso fazer com que isso te constitua.

Envelhecer não é só fazer ruga, viu?”