Dor de mundo, dor de tudo

Uma vez, lendo um livro qualquer, aprendi que a “dor do mundo” tinha uma expressão só para ela. Weltschmerz. Em alemão, também pode significar “cansaço do mundo”. E talvez, só talvez, essa expressão me defina agora. Como já definiu em tantos outros momentos dessa minha curta trajetória. Talvez a weltschmerz já faça parte de quem eu sou.
Eu sempre fui do tipo que transborda, sempre me excedi no que sentia: amor, raiva, decepção ou preocupação. Difícil alguém entender essa zona de loucura que circunda os meus pensamentos, até hoje ninguém conseguiu. Surto. Surto porque transbordo, porque algo me sufoca e eu simplesmente não consigo expressar.
Li esses dias no Facebook que “a minha vida é igual um cubo mágico: quando arrumo de um lado, bagunço de outro”. E há tanto tempo esqueci que meu remédio maior – e melhor – eram as palavras. Que eu conseguia transferir tão bem o que sentia para elas, elas conseguiam traduzir perfeitamente toda aquela angústia que simplesmente surgia. Ou a felicidade aparente.
Fiquei muito tempo na calmaria e hoje sinto, me preparo, para uma maremoto. Uma tempestade. Interna, eu sei. Sempre foi. Acho incrível o mundo que construí para mim internamente e sinto falta de um lugar aqui dentro que eu pudesse ocupar para refletir. Há algum tempo venho ocupando todos os espaços em branco com preocupações – com os outros. Esqueci de mim. Me descobri e, descoberta, deixei a poeira acumular.
Se antes eu queria me encontrar, hoje quero saber onde me guardei. Me perdi pelo caminho, já não reconheço mais quem sou. E cá estou eu, transbordando de novo. Dessa vez, transbordando insatisfação. Com o que era para ser e com o que não me tornei. Não me tornei porque não sabia no que podia me tornar.
Se antes cobrava que os outros vissem alguma perspectiva futura em suas próprias vidas, como conselho de amiga mesmo, hoje não consigo mais enxergar para mim. Me questiono se um dia, de fato, consegui. A visão é turva, nada me revela. E o medo do que é desconhecido para mim novamente toma conta.
A garganta seca e o olhar se perde. Consigo observar a movimentação na rua sem me prender em um único rosto. Me vejo parte dessa multidão já sem uma identidade sólida. Mal consigo ver uma mão estendida, porque todos andam iguais. Na mesma direção, mas perdidos. Walkers. Faça isso, faça aquilo, dê atenção, estude, cresça, trabalhe, limpe, arrume, termine, escreva, ore, acorde, faça, faça, faça. Cedo ou tarde tudo transbordaria. Weltschmerz.