“Não escrevemos coisas que as pessoas querem ler, mas o que elas precisam ler”

daniela arbexQuando ganhei o livro “Holocausto Brasileiro”, praticamente engoli a obra em dois dias. Terminei a leitura com a vontade de conversar com a autora, Daniela Arbex, quase que imediatamente. Eis que os anos passam e, o presente que a vida me deu – ou a profissão me deu? – foi a oportunidade de entrevistá-la sobre suas obras, a segunda, “Cova 312” lançada este ano. O resultado do bate-papo foi publicado no jornal O Diário e, como o impresso restringe o espaço de gente “palavruda” como eu, publico aqui a entrevista na íntegra.

Algo que me chamou a atenção foi que a Daniela comentou da preocupação que a mãe dela tinha logo no início da profissão com a exposição a determinados assuntos que a filha teria de enfrentar. A exemplo da primeira reportagem que cobriu no jornal onde trabalha até hoje, o Tribuna de Minas, sobre crianças abusadas, ela comentou: “Minha mãe disse: ‘minha filha, isso é tão chocante. Não quero que você escute essas coisas’”. Hoje mãe de um menino, Diego, vejo como as gerações mudam a forma de encarar certas situações: seus livros são dedicados para que o pequeno conheça essas histórias.

As obras de Daniela nos ensinam a importância de encarar nossas barbáries para que isso não mais se repita no futuro. Um corajoso legado para esta e as próximas gerações.

Segue, então, o texto publicado no jornal (com adicionais!):

arbexA jornalista e escritora mineira Daniela Arbex completa, em janeiro de 2016, duas décadas dedicadas ao jornalismo. A marca que construiu ao longo deste tempo enquanto repórter do Tribuna de Minas, é a de reunir boas histórias e trabalhar com afinco no processo de produção de um jornalismo investigativo de qualidade. Em Maringá no último fim de semana para ministrar duas palestras na Unifamma, a jornalista conversou sobre suas duas obras, “Holocausto Brasileiro” e “Cova 312”, publicadas em formato de livro-reportagem.

Em “Holocausto Brasileiro”, livro de estreia que se tornou best-seller, a premiada jornalista resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da história do Brasil: a barbárie e a desumanidade praticada no maior hospício do País, conhecido como Colônia, localizado na cidade mineira de Barbacena, onde mais de 60 mil pessoas morreram. Já em “Cova 312”, a mineira conta a história real de como as Forças Armadas mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com o corpo. Ela reconstitui toda a história do jovem e continua investigando até chegar na anônima Cova 312, que dá título ao livro.

Os livros são frutos de reportagens especiais sugeridas e escritas por ela ao jornal onde trabalhou durante toda a vida. Além das obras, a autora se lançou recentemente na área documental junto do diretor Armando Mendz: está prevista a estreia na HBO para o primeiro semestre do ano que vem o documentário que explora as histórias que surgiram após a publicação de “Holocausto Brasileiro”. Em entrevista concedida por telefone, Daniela fala de seu processo de apuração, da importância em se apostar nas grandes reportagens e da importância em dar voz às pessoas anônimas na construção diária de uma sociedade mais justa.IMG_4543

Geralmente a história tende a destacar mitologicamente alguns personagens que se sobressaíram em determinados períodos, e nesse aspecto o jornalismo nos permite resgatar outras visões. As suas duas obras apresentam ao leitor versões até então deixadas de lado. Qual a importância de dar voz aos anônimos?
Meus livros são exemplo disso. Contam histórias que não estão nos livros oficiais, e isso faz com que esses personagens reescrevam a história. Primeiro para que essas histórias ganhem visibilidade, segundo que nosso papel [enquanto jornalista] é exatamente jogar a luz às questões que estão na marginalidade. Quando se fala do “Holocausto Brasileiro”, se coloca em discussão a questão da saúde mental, do tratamento, modelo de atendimento, o livro mostra todas essas questões e está cumprindo o papel dele. Se você pensar que faculdades do Brasil inteiro, vários cursos – direito, medicina, sociologia, psicologia, comunicação – estão interessados, é maravilhoso. Isso mostra o quanto as histórias estão sendo úteis para que possamos ver o quanto a indiferença gera a barbárie, que não podemos nos omitir. Quanto nossa cultura é da exclusão social, que os diferentes ainda são colocados à margem. Este é o serviço que podemos prestar: fazer as pessoas refletirem. Essa semana que passou publicamos uma crônica que foi compartilhada 1,5 mil vezes nas redes sociais. E uma das pessoas disse: tá bom, mostrou o problema, mas qual a solução? A solução é essa, falar do problema. Colocar o dedo na ferida, fazer as pessoas pensarem que elas têm de dizer ‘não’ para certas coisas. No caso, a matéria falava que estão fazendo testes para admitir crianças para serem aceitas na educação infantil e ensino fundamental. Isso é uma loucura. Estão fazendo seleção. São crianças. Precisamos dizer não para essas coisas e a solução é essa: iniciar uma reflexão para então gerar a mobilização. É preciso de todo um processo de amadurecimento e este é o começo de uma solução.

Cova312

“Cova 312” Publicação: 2015 Gênero: Reportagem Páginas: 344 Editora: Geração Editorial Valor médio: R$ 39,90

Tanto em “Holocausto Brasileiro” quanto em “Cova 312” você lida com o tema do confinamento e da tortura. Para escrever essas histórias, lidando com a dor do outro, é inegável o envolvimento do jornalista. Como você se sentiu ao se deparar com situações tão chocantes?
Eu nunca me blindo para escrever alguma coisa. As pessoas sempre me dizem que é necessário ter uma proteção, como entrar em contato com essas histórias assim? Eu me entrego a elas, escuto, me coloco a favor dessas pessoas e me deixo tocar porque assim posso tocar o outro. Não dá para contar essas histórias e ficar imune a elas, isso vai te afetar de alguma e vai transformar a sua história também. Isso é bonito e não tem nada de ruim. Uma das primeiras matérias que eu fiz foi sobre crianças que foram abusadas sexualmente e eu estava ouvindo os depoimentos. Minha mãe disse: “minha filha, isso é tão chocante. Não quero que você escute essas coisas”. E na verdade, isso nunca me afetou negativamente. Não temos que ter medo de encarar as coisas ou ter cabeça de avestruz para enfrentar nossa história. Temos que olhar para ela de frente. Se o Holocausto é a nossa vergonha, temos que falar dele para que isso mude a nossa realidade. Eu nunca tive medo ou temor, porque é isso que me deu tanta vontade de mudar. Fiquei tão chocada que tive vontade de mudar.

Tem alguma história preferida?
Não, todas são especiais e grandiosas, de pessoas que enfrentaram e conseguiram sobreviver. Não tem uma história mais forte que a outra, são todos seres humanos, todos têm suas histórias, valores, complexidades, fraquezas. Só posso dizer que fiquei muito honrada por essas pessoas confiarem a mim suas histórias.

Daniela, você comentou em uma entrevista ao jornal Hoje em Dia que novas histórias surgiram a partir do lançamento do livro e que agora são compiladas em um documentário que será exibido pela HBO. Existe a possibilidade de reunir essas histórias em uma atualização ou segunda versão do material impresso já lançado?
Não é a minha pretensão. Esse livro não conta todas as histórias, ele abre a porta para que as pessoas conheçam essa história. Essas pessoas nunca tiveram voz, nunca foram procuradas e esse mérito é meu e ninguém vai tirar isso de mim. É um livro tão rico e tão poderoso que eu não quero mexer nele. Pode ser que amanhã eu pense diferente, mas vejo que ele está bastante completo, com muito das pessoas. Para mim ele é perfeito, forte e eu não quero arrastar essa história só porque fez sucesso, eu não quero só vender livro. Meu compromisso é com a história e essa história está muito bem contada. E agora com o documentário, esse segundo momento, de bastidor, está contemplado no vídeo, que é uma continuação do livro. O documentário está incrível, acabei de enviar o segundo corte e estou muito feliz com o que conseguimos reunir em um material de uma hora e meia. Vai ser exibido no Brasil e simultaneamente e em mais 20 Países. Nós vamos parar a América Latina.

O diretor Armando Mendz menciona em uma entrevista que na produção do documentário vocês também conversaram com pessoas que não concordavam com o livro. Que tipo de confronto você sofreu após a publicação?
Foi muito difícil ficar 40 dias em Barbacena, fui muito hostilizada na primeira semana. As pessoas diziam “eu não sou nazista, você me colocou como nazista”. Olha que interessante: as pessoas falavam que eu estava contando uma mentira. “Você fala que davam choque nos internos, não davam?”, “Dava sim”, “E tinha anestesia?”, “Não, não tinha. Mas a gente dava com todo o cuidado”. Se você ler o livro, não é bem assim. Fui percebendo que essa revolta não era nem contra a obra, mas de terem participado dessa história e não se darem conta do tamanho da tragédia que fizeram parte. Hoje isso não me incomoda mais. Em um primeiro momento eu sofri. O documentário vai mostrar que o que está no livro é fichinha. E isso vai ser apresentado na voz dos outros. Ainda não fechamos a data de exibição com o canal e o que posso adiantar é: prepare-se para o que você vai ver e ouvir.

Como você conciliou o trabalho na redação com os levantamentos e produções das obras?
A primeira vez, que foi na produção de “Holocausto Brasileiro”, gravei em todos os finais de semana durante um ano para apurar os personagens do livro. Chegava em casa da redação às 21 horas, colocava meu filho para dormir e escrevia até as 5 horas. Fiz isso por um ano e meio. O segundo livro, “Cova 312”, já foi mais complicado conciliar, porque eu tive que viajar muito, pelo País todo e ainda tinha o documentário da HBO para fazer. Fiquei sete meses de licença e em 20 anos de jornal essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Não é muito tranquilo conseguir essa licença, mas pelo fato de ter me dedicado muito pro jornal, ele entendeu o momento. Principalmente porque o documentário vai ter uma visibilidade grande. São pautas que nasceram comigo e desenvolvi aqui. Foram séries de matérias premiadas e temos uma relação muito boa de confiança. Acho que dei muito do meu tempo para o jornal mas o tempo em que eu precisei o jornal também me ajudou.

Pode contar um pouco do seu método de apuração?
Sempre procuro conciliar no meu trabalho depoimentos com documentos. No caso do Holocausto muita gente já tinha morrido, enfim, mas eu trouxe à tona um assunto que o Estado sempre quis deixar guardado, e tudo precisava estar bem documentado. No caso do Cova, muito mais. Sempre trabalhei com a documentação e desenvolvi um método de investigação que uso em todas as minhas matérias. Justamente por trabalhar em um jornal pequeno e um processo grande poder acabar com o jornal, acabei tendo um rigor muito grande, meus chefes sempre foram muito exigentes. Não poderia errar, não tinha o direito de errar, porque a consequência para o jornal seria terrível. Acabei aprendendo a percorrer cartórios, a ler boletim de ocorrência, analisar processos, verificar documentos na Justiça do Trabalho, Justiça Federal e aprendi tudo isso fazendo na prática. Se não fosse o rigor da minha editora, eu não teria desenvolvido esse método. Por ela exigir sempre comprovação, eu tive de aprender a me virar. Hoje é um caminho natural que eu percorro ao fazer uma denúncia. É muito bacana, porque é um método bem artesanal, mas funciona. Demanda muito tempo, exige que você gaste muito a sola do sapato e tem sido eficiente até agora.

Em redações cada vez mais enxutas, como driblar a falta de estrutura para a produção de materiais especiais e qual o peso de reportagens em série no jornalismo atual?
No meu caso especificamente, nunca tivemos maiores recursos ou melhores oportunidades, mas soubemos trabalhar com o que a gente tinha. Então não adianta chorar que o jornal não oferece ou não pode pagar um segurança… Temos de trabalhar com o que a gente tem, e isso me forçou a ser muito criativa nas investigações. Isso é um ponto positivo e mostra que não é necessário ter todos os recursos do mundo para fazer jornalismo investigativo de qualidade. A outra coisa em relação a grandes reportagens: elas são essenciais para a manutenção do jornalismo impresso de qualidade. Se a gente se esquecer disso e com as redações cada vez mais enxutas abandonarmos as grandes reportagens, daremos um tiro no pé. São as grandes reportagens que dão credibilidade ao jornal, agregam leitor, criam mobilização em torno do jornal, um orgulho pelo jornal, que se torna referência a partir disso. No meio dessa crise toda, em um ano que tivemos demissões seríssimas, conseguimos vender um projeto que foi todo mapeado pelo fundador de Juiz de Fora, e vamos refazer o que caminho que ele fez. É uma matéria de fôlego, corajosa e estamos apostando tudo para presentear o leitor ao final do ano, pelo respeito que temos ao leitor e pelo amor que temos pelo jornalismo. É uma luta, sei que para o jornal nesse momento também é complicado, mas a gente sabe que a aposta vai trazer coisas positivas em um ano tão tenso para nós.

Acredita que hoje grandes reportagens perderam espaço em decorrência da internet?
Pelo contrário, hoje vejo reportagens de fôlego na internet. Temos grandes exemplos que jornalismo na internet não é só instantâneo, depende da proposta. O prêmio Vladimir Herzog este ano mostrou trabalhos maravilhosos na categoria da internet, eles não conseguiram dar o primeiro lugar para uma só pessoa, mas para duas, devido à qualidade do material apresentado. Um material riquíssimo, histórias maravilhosas e muito bem apresentadas. Isso é um exemplo para nós do que é preciso continuar sendo feito. A importância de se continuar contando boas histórias e com essas histórias transformar esse País.

Você conta em algumas entrevistas que teve de insistir muito na pauta que resultou em Holocausto Brasileiro.
Trabalho em um jornal pequeno e eu não podia dispor do meu tempo. Quando propus a primeira vez, em 2009, foi quando eu tive acesso às fotos feitas pelo Luiz Alfredo do Colônia. Em 2010 eu também não consegui. Quando foi em 2011, voltando de licença maternidade, a série de fotos completavam 50 anos. Eu disse: é agora ou nunca. Nunca desisti de uma pauta. Sabia que era uma história grandiosa, mas não sabia o rumo que ela tomaria, mas tinha certeza que era uma história que a minha geração precisava conhecer. Descobri que era uma história que o Brasil desconhecia.

Tem projetos para novos livros?
Tenho projetos para próximos livros sim, falando de temáticas sociais. É a minha marca, falar do abuso de poder, essas questões. É o que eu gosto de fazer.

holocausto_brasileiro

“Holocausto Brasileiro” Publicação: 2013 Gênero: Reportagem Páginas: 256 Editora: Geração Editorial Valor médio: R$ 39,90

Você revela uma realidade encoberta em “Holocausto Brasileiro”, mostrando o Colônia, local onde 60 mil pessoas morreram. Hoje, na sua opinião, fechamos os olhos para quais outros holocaustos?
Muitos outros. O genocídio da população negra, o descaso com os jovens negros. Toda a desumanidade do serviço que está sendo prestado com os adolescentes em conflitos com a lei, as chacinas em favelas. Tem tantas tragédias acontecendo todos os dias. A questão do racismo ambiental que não é ligada só a cor, mas a história. Todos os dias há inúmeros holocaustos que a gente continua fingindo que não vê, e isso acontece diante de nossos olhos. Os haitianos, as pessoas que não têm lugar no mundo e ficam vagando pelos países. É tudo muito sério. Às vezes não escrevemos coisas que as pessoas querem ler, mas o que elas precisam ler.


Gostaria de fazer uma pergunta mais pessoal. Por que escolheu ser jornalista?

Sempre fui muito indignada. Encontrei recentemente uma professora de uma escola que estudei na educação infantil e ensino fundamental e ela disse que sempre quis me escrever sobre o meu trabalho. E me disse: você sempre foi questionadora. Realmente, sempre dei muito trabalho na escola. Sempre tive essa indignação, essa vontade de fazer com que essas pessoas encontrassem seu lugar na sociedade e elas continuam a margem. Achei que o jornalismo era um meio importante para eu fazer isso. Acho que acertei, foi uma boa escolha porque é o que eu amo fazer. Se quer
me ver feliz é falar de jornalismo, contar a história das pessoas. Completo 20 anos de jornalismo em janeiro de 2016.

Nessas duas décadas dedicadas à profissão, o que o jornalismo contribuiu para ser hoje quem você é?
Eu fico emocionada com essa pergunta que você fez. Eu ganhei muito. Se eu emprestei alguma coisa minha ao jornalismo, a profissão me deu a chance de realizar muitos sonhos.

Sobre a autora: Daniela Arbex ganhou o Prêmio Esso, menções honrosas nos prêmios Vladimir Herzog e Lorenzo Natali, recebeu o Knight International Journalism Award, entre outras premiações ao longo de sua carreira. Com a obra “Holocausto Brasileiro” conquistou o segundo lugar no prêmio Jabuti em 2014, na categoria livro-reportagem.