ProcrastinAção

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Um belo dia resolvi mudar… E começar todos os meus textos com música. É, pois é. Tudo para desviar do foco, esse meninão que sempre se esconde quando mais precisamos dele. É sobre isso que gostaria de falar hoje, não exatamente sobre foco, mas algo que o embanana bastante: a procrastinação. Em uma rápida pesquisa em um dicionário online, esta palavrinha tenebrosa significa deixar para depois. Adiar. Postergar. Demorar.

Por que estou tratando disso hoje? Bom, provavelmente porque estou deixando alguma atividade importante que eu deveria terminar de lado só pelo simples prazer da procrastinação. Enfim, desde que passei a encarar o freelance como prioridade da minha fonte de renda, a procrastinação aparece de brinde em certas ocasiões. Em especial quando se escolhe trabalhar em casa. Tem lá seus benefícios: você organiza seu horário (ou não), trabalha de shorts, trabalha com o coelho solto no homeoffice brincando. Mas ainda assim, trabalha.

E estando em um ambiente tão literalmente familiar, o quarto é logo ali. O sofá nunca pareceu tão sedutor. A televisão implora ser ligada. Os seriados atrasados ficam berrando por atenção. Essas coisas normais de casa de gente de carne e osso. Aí encontrei minha grande dificuldade: como não procrastinar? Com ela, vieram os amigos Penalidade e Pessimismo. Eles sempre me deixavam com uma culpa quilométrica na consciência por simplesmente deixar para mais tarde.

Eis que me deparo esses dias em um texto em que, vejam só, a procrastinação é defendida! Finalmente não fora julgada mal! E não podia deixar de concordar, em partes, com o que li: quem vive de criatividade, pausas são estritamente necessárias para deixar o cérebro exercer a função do nariz e respirar aliviado por desligar um pouco do foco. Em vez de atrapalhar demasiadamente o ritmo, aqueles suspiros ao longo do dia viriam a beneficiar o trabalho final (não queremos forçar a barra com a nossa cabecinha e fundir os parafusos que restam, não é mesmo?).

Portanto, amiguinhos, não crucifiquem a procrastinação! Vamos erguer nossas mãos segurando canecas de cafés e dizer: ela é, por vezes, necessária (só não vale escorar nisso e procrastinar a vida porque sim, ok?). Deixa a Ana seguir o fluxo do início e fim de texto musical e dizer, à la Rita Lee, em respeito aos momentinhos que nascem da procrastinação: um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer!

Veja o sol dessa manhã tão cinza

typewriter-801921_1280Todos os dias no meu ritual de acordar e colocar os dois pés no chão de uma vez – manias, manias, afinal, por qual motivo começar com o pé direito sendo que eu posso começar com os dois? – sempre me lembro de uma promessa um bocado empoeirada de voltar a escrever. Mas que diabos, Ana, você é, entre todas as atividades que se mete a fazer, jornalista. Já escreve o suficiente, não? Mas e aquela enxurrada de palavras que vêm à mente quando menos se espera? Então me coloquei à disposição do acaso. Quando fosse a hora, uma ideia genial chegaria, eu escreveria um texto bacana, e ficaria assim. Ao acaso.

Mas esses momentos de “Eureka!” parecem cada vez mais distantes. Lembrei-me de um conselho dado pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes em uma entrevista que fiz, que a escrita se desenvolve com o hábito. Portanto, além dos dois pés no chão quando acordasse, deveria colocar também as duas mãos na massa. Parece tolo, mas se quero textos, tenho que começar a escrevê-los. Independente sobre o quê. É assim que nasce o hábito, no final das contas. Sem esquecer dos textos. E onde estava eu com a cabeça que não tinha me atentado a essa continha básica?

Perdida entre sonhos, planos, listas de coisas para fazer, arrumar a casa, cuidar do bolo que está assando. Apostar na minha própria capacidade de me reinventar tem ocupado bastante tempo. A cabeça estava processando talvez meu olhar na chuva que cai calmamente lá fora. Na queimadura que está ardendo no meu braço esquerdo, desastrada que sou ao abrir o forno para espetar o bolo. A concentração está inebriada pelo barulho aleatório da televisão, que ultimamente têm me dado a sensação de que não estou tão sozinha em casa, apesar dos quatro roedores e dois lagomorfos habitando o mesmo lar.

Então resolvi começar do começo: abrir o word, encarar a tela em branco e me concentrar a escrever sobre qualquer coisa. Ou nada. Mas ainda assim, escrever. E cá está um desafio semanal: escrever sobre o que der na telha, apenas pelo gosto de escrever, descrever, buscar refúgio nas palavras para tentar reorganizar as ideias e os pensamentos. Transfigurar a realidade em linhas – ou mergulhar de vez em ficção quando a realidade não der trégua. Vai lá, Ana! Escreva. Pieguice por pieguice, continuando o Legião Urbana que deu título ao texto sem nexo: temos nosso próprio tempo. 🙂