Saber o que e quando ‘compartilhar’ não se restringe ao Facebook

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Daí que me deparei com um texto nessa internet da vida em que uma mãe falava que não iria ensinar o filho a compartilhar. Que as pedras voem! Isso, ateiem fogo na mãe! Que horror, vai criar uma criança egoísta! Absurdo. Eu não acredito nisso! Ok, ok, ok. Acalmou? Então tá. Essa mesma mãe dá um exemplo no texto dizendo que algumas crianças desconhecidas no parque pararam o seu filho para pegar um brinquedo que ele estava carregando e ele se sentiu pouco à vontade com a situação. Aí ela compara com a nossa atitude enquanto adultos:

“Se eu, uma adulta, entrar no parque comendo um sanduíche, eu sou obrigada a compartilhar meu sanduíche com estranhos no parque? Não! Algum adulto bem-educado, um estranho, estenderia a mão para servir-se do meu sanduíche e ficaria irritado caso eu o puxasse para longe? Não, de novo. Então, realmente, enquanto vocês estão me olhando feio, presumivelmente pensando que meu filho e eu somos rudes, de quem são os modos faltando aqui?“, escreveu Alanya Kolberg no Facebook.

Bom, se eu estou andando no parque com um caderno, um celular ou um tablet e um estranho me pede para usar… Dificilmente eu vou falar “tá bom”. Certo?

É estranho. E para as crianças considero pertinente ensinar e explicar que ela compartilha, sim, mas com quem ela se sentir à vontade para tal. Ela não é obrigada a compartilhar com quem não quer, não conhece, não tem convívio só porque vão olhar com cara feia ou dizer que é “rude”. Somos assolados sempre pelo poder da desconfiança, logicamente e principalmente quando adultos. Mas a verdade é que a gente compartilha, sim, mas com aqueles que sentimos um mínimo de proximidade. Ensinam aos pequenos que “saibam dividir”. Ok. Mas isso é realmente feito da maneira correta? Aliás, existe maneira correta? Só levantei a discussão porque isso me fez pensar. Não vou cagar regra, porque quem sou eu na fila do pão para dizer o que é certo e o que é errado. Só digo que concordo com a afirmação da mãe. E tudo isso me fez também relembrar.

Na hora do recreio

Quando eu era pequena, levava sempre um pacote de bolacha para o recreio. Durante esse breve período de diversão, eu sentava com outros amiguinhos atrás da biblioteca da escola e ali a gente compartilhava tanto da minha bolacha quanto do lanchinho que outros levavam de casa. Era uma espécie de piquenique, e mesmo quem não levava lanche no dia podia participar. Fazíamos isso espontaneamente porque gostávamos uns dos outros. Minha mãe nunca disse: olha, você TEM que compartilhar suas bolachas na escola. Isso foi percepção minha.

No entanto, tinham dois meninos da turma que sempre causavam confusão, e não foi uma nem duas vezes que antes de eu chegar no nosso cantinho de passar o recreio, eles me paravam, faziam cócegas e me imobilizavam para tomar de mim o meu lanche. Um dia resisti e eles levaram o assunto para a professora, que me repreendeu. Disse que eu precisava aprender a compartilhar. Não, eu não era obrigada a compartilhar nada com eles porque eu NÃO ME SENTIA À VONTADE PARA TAL. E não me sentia egoísta por isso.

Mas a professora sabia de todo o contexto? Não. Todo o cuidado é pouco na hora de apontar dedos. Era certo compartilhar com quem eu não queria e me fazia mal? Da mesma forma que ensinamos as crianças a não aceitarem coisas de estranhos, é preciso também conscientizar para não ceder a pedidos ou pressões de estranhos porque é simplesmente necessário “dividir”. Mesmo que sejam outras crianças. Acredito que o respeito às decisões e ao espaço do outro deve ser ensinado desde cedo, já que esse é um tema de muitas indiretas nas redes sociais hoje! Aprender a lidar com o “não” também é uma forma de aprendizado importante. A compreensão necessária é a de que existem formas e formas de partilha. A explicação e exemplificação disso se faz pertinente, sim.

O assunto mais falado da semana

Aliás, vou até retomar aqui um assunto que está inclusive desgastado na internet, mas pode também servir de exemplo: uma criança me mostrou na semana passada uma mensagem que recebeu no celular (já começo achando errado aí de criança ter celular, mas beleza) que dizia que um dos desafios do tal joguinho da Baleia Azul era levar bala envenenada em três escolas e dar para outras crianças. O menino na mensagem pedia desculpas às mães e pais daquelas crianças, mas que aquela atitude era necessária porque ele precisava continuar com as “missões” ou morreria.

Sem saber, alguém poderia dizer: olha que atitude louvável, essa criança compartilhando bala com quem não conhece. Muito bonitinho. Sabendo disso, como reagir a essa atitude? Volto ao que falei acima: existem formas e formas de partilha. A explicação e exemplificação disso se faz pertinente, sim. E debater sempre é saudável. 🙂