Gratidão

Depois de semanas com esse texto indo e vindo na minha mente, eu finalmente sentei para escrevê-lo.

“Vamos marcar alguma coisa!”, sempre dizíamos. Claro, para não fugir à regra, esses encontros nunca davam certo. Era mais desafiador reunir os amigos em um dia em que todos poderiam estar presentes do que percorrer uma maratona completa. Mas sem menos esperar um dia mandei recado de que faria um almoço em casa. Eram dias sombrios, não vou mentir. Sair de casa parecia um risco tremendo. E justamente naquele dia, deu certo. Assim, como diria o Chaves, sem querer querendo.

Quando me viu, ela não hesitou em dizer que se preocupava mais comigo que com nosso outro amigo que também estava em maus lençóis. Logo ela, que estava passando por um daqueles momentos que você sequer consegue mensurar a dor. Me assustei, claro. Imagina só alguém te falar isso sem que eu tenha mencionado qualquer dificuldade. Não demorou a dizer: o Espírito Santo está me falando que você precisa parar de procurar. É hora de parar e se recolher. Você precisa olhar para dentro e se ouvir mais. Há meses sem nos encontrarmos, ela simplesmente sabia.

Desde então não passo um único dia sem lembrar dessas palavras e, quando menos espero, me deparo com essa transformação ocasionada pelo simples exercício de observação. Logo eu, que vivia sem tempo para sequer respirar. Que me afundava em trabalho, trabalho e trabalho. Logo eu, que achava que estava tudo bem. Foi preciso uma pausa brusca da vida para repensar a importância das coisas na minha vã existência. Eu não percebia que estava quebrada e precisava me consertar, mas ela mesmo estando longe, percebeu.

A pausa foi necessária para que eu pudesse reconhecer a mão estendida de onde eu menos esperava – ou merecia. De pessoas que sequer imaginava. Serviu também para me mostrar que, embora eu seja esse tipo de ser humano que se entrega às relações de amizade, muitas vezes a gente se decepciona com atitudes que não esperávamos. Mas bastou para refletir também que ninguém age do mesmo modo que eu agiria. Isso não é um defeito, mas passível de compreensão. É preciso reaprender todos os dias.

Desde a orientação de “pare de procurar”, eu tenho encontrado. Venho me reencontrando dia após dia, pedaço por pedaço, me reconstruindo. É verdade que o mundo não para a fim de que a gente recolha nossos cacos. Mas eu aprendi que é preciso dizer ao mundo que mesmo sem parar, é preciso desacelerar. Olhar para dentro tem me feito entender mais sobre as outras pessoas do que eu mesma. Naquele dia, depois de tanta prosa boa adiada por tanto tempo, ela ainda me disse: Deus me alertou que eu precisava vir.

Ele realmente nos toca através das pessoas. Hoje eu digo porque naquele dia, sem mais nem menos, tudo conspirou para que eu ouvisse o recado. Que eu parasse e me consertasse antes de seguir em frente.

Obrigada.

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