Já vou indo, já vou indo!

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Um dia eu pensei que deveria escrever sobre o livro que marcou minha infância, justamente por ter sido o primeiro livro que li na escola. Chegou a hora. “Lúcia Já Vou Indo”, da Maria Heloísa Penteado, deve ter figurado em algum momento na vida de vocês. Essa é a história de uma lesminha que estava sempre atrasada porque ia devagarinho… Inho… Inho… Até hoje eu brinco com a minha mãe, chamando-a de Lúcia quando faz as coisas muito devagar.

Na verdade, eu me apaixonei pela Lúcia e seu jeito todo lento e molenga porque também me identifiquei com a história. Claro que, criança, eu apenas fantasiei entre as ilustrações da própria Maria Heloísa sobre aquela figura que até para tropeçar na Maria Redonda, a pedra, demorava uma eternidade. Mas se você está pensando que Lúcia-Já-Vou-Indo fala mais sobre impaciência, está enganado. Foi relendo essa história um ano atrás que me dei conta que a grande lição de Lúcia, nada mais é do que nos ensinar sobre compreensão, inclusão e respeito ao tempo do outro (e ao nosso tempo principalmente).

Criamos uma grande expectativa em relação ao tempo: aguardamos com ansiedade os 18, queremos logo tirar a carteira de motorista. É preciso decidir o que fazer da vida aos 17 anos. O quê? Você não passou no vestibular? Já está na hora de começar a namorar. E quando vocês vão casar? De repente, vislumbramos uma vida estável aos 30. Casou? Precisa ter filho logo, não vai querer ser uma mãe velha. Tá doida de começar outra faculdade? Se formou e não conseguiu um emprego ainda? De repente topamos com a frustração de não alcançar todas as expectativas que os outros plantam em nós.

A semente é depositada em nossa vida, mas somos nós os responsáveis por regar essa pressão sobre o que construímos ao longo dos anos. Queria eu ter dado mais ouvido para Lúcia lá atrás. Mas é que… Levou tempo para que eu amadurecesse a compreensão dessa história. O meu tempo, nem muito e nem pouco. Foi o tempo suficiente. A cobrança do tempo do outro é um veneninho que age no mesmo timing da Lúcia: devagarinho. Mas é letal. A frustração lá na frente abre portas terríveis para a nossa existência e auto-estima.

Quando as vespas resolvem que, já que a Lúcia perde as festas porque está sempre atrasadinha, mesmo se esforçando, vão fazer uma festa na casa dela… O meu coração simplesmente transborda por eu enxergar a vespinha em tantos amigos acelerados. Cada personagem tem um rosto diferente para mim, inclusive quando me olho no espelho. Quantas vezes estamos com vontade de mover montanhas aceleradíssimos? E os dias em que temos mais dificuldade para entender algo? Foram anos para que eu resolvesse aprender outra língua enquanto meus amigos já eram exímios poliglotas. Mas tudo bem.

Nesse meio tempo eu aprendi a pintar, a cozinhar e finalmente a fazer crochê. “Ah mas isso não faz a diferença no mercado de trabalho”. De fato, talvez não faça. Mas se você soubesse o quanto me faz bem dedicar um tempinho para projetos que eu gosto, você entenderia. Por que não tenta também? Não tem nada de errado nisso. Só que demorou 26 anos para eu perceber que a vida não é uma competição. E que a beleza está em nosso desenvolvimento único: somos diferentes, e o respeito a essas diferenças deveria ter feito sentido lá atrás. Que bom que fez agora! Não somente pelo respeito ao outro, mas pelo respeito que devemos ter a nós mesmos.

Falar menos, ouvir mais, observar ainda mais. Apreciar. Perceber o tempo. Quantas vezes você já falou “nossa, mas o tempo está voando!”. De fato, ele voa quando não nos atentamos ao que estamos fazendo com ele. Aprendi à tempo que na vida, o importante é ser Lúcia. Devagar, mas nunca estagnada no mesmo lugar.