Sorvete de uva ao creme com brigadeiro

Eu lembro que quando me sentia angustiada, em um dia ruim, o Beto que era o motorista do meu primeiro emprego sempre parava na primeira sorveteria que encontrava e comprava sorvete de massa pra mim. O sabor sempre era de uva ao creme com brigadeiro. E aquilo sempre me acalmava e me deixava feliz de alguma forma. Na época eu era uma foca bem distante da formação acadêmica que brincava de fotojornalismo. Entre uma pauta e outra, naquele dia ruim, que acumulava um monte de trabalho da faculdade, que eu achava que não ia dar conta, sempre arrumávamos uns trocos para afogar as mágoas em um sorvete de uva ao creme com brigadeiro.

Quando saí desse emprego e fui pra outro, era difícil sair para afogar as angústias assim, porque era um trabalho interno. Até que eu fiz a minha primeira prova de direção e reprovei naquilo que eu achava que sabia bem: a baliza. Voltei a pé para o estágio mas sem coragem de entrar e encarar as perguntas se tinha ido bem, se havia passado. Foi quando avistei uma sorveteria próxima dali: claro, pedi um sorvete de uva ao creme com brigadeiro. Chorava e tomava sorvete ao mesmo tempo, fazendo a maior lambança. Como sempre associei esse sorvete com um reconforto de que tudo ficaria bem, ficou.

E assim foi. Sempre que estava chateada com algo, eu procurava saída como se o sorvete fosse o grande segredo para que as nuvens escuras dessem lugar ao céu azul. Porque eu acreditava, era. E assim foi. Daí que hoje, 7 anos depois desse período, me deu uma vontade louca de tomar sorvete de uva ao creme com brigadeiro.

Porque se a vida amarga, a gente dá um jeito de adoçar.