Para não esquecer

Um ano. Exatamente um ano atrás e eu não consigo lembrar com muita nitidez do meu estado, mas sei que falar de 2017 para os meus pais é a maneira mais fácil de causar calafrios neles. Principalmente o meu pai, que sempre me diz que não quer me ver igual ele viu. Eu não consigo me enxergar pelos olhos dele, mas pelo tom de voz, talvez tenha uma breve noção de que não foi um período muito bom. Hoje parece tão distante.

Sei que minha vida se resumia a sair da cama e ir para o sofá. Eu não conseguia mais fazer os artesanatos que adoro, me irritava com uma facilidade tremenda, achava que todos estavam de alguma forma incomodados com a minha falta de emprego, quando na verdade estavam preocupados com a minha falta de saúde mental. Às vezes quando me pego dirigindo para vários lugares dentro da cidade consigo me lembrar de que há um ano eu não tinha coragem de dirigir. Era totalmente dependente da minha mãe ou do meu noivo.

Tinha medo. De tudo. De simplesmente existir. Já não me preocupava com a minha aparência, com o que eu vestia, não conseguia ler – exercício que tanto amo. Não conseguia me concentrar. Mal podia sentar e escrever, apenas alguns desabafos em um caderno velho já que não tinha forças para gritar o que estava no meu coração. Eu tinha medo de arriscar ao mesmo tempo em que já me culpava pelo fracasso. Não tinha noção de que o que eu vivia era uma doença.

É até engraçado pensar que eu vivi o pior momento da minha vida junto do melhor. Quando tudo parecia desmoronar, a mão que me segurava foi a mesma que tomou a decisão de caminhar de mãos dadas comigo até o fim. Estava perdida e ao mesmo tempo não. Estávamos loucos por decidirmos casar, e ao mesmo tempo tão sensatos. O ano de depressão foi também um ano de libertação. Mas eu só consegui ver isso depois.

E aqui estou, após um ano, recomposta porém ainda medicada, pensando em uma das histórias que a Monja Coen contou ontem na palestra que assisti. Ela disse: se algum amigo chegar e disser

– Olha, eu perdi tudo!
É preciso responder: – Que bom! Que maravilha! Porque você tem a oportunidade de conquistar tudo de novo.

Hoje olho para trás e só consigo dizer: obrigada, Deus! Por me cuidar mesmo quando eu mesma não me importava se estava protegida. O ano da minha virada foi 2017, pois embora dolorido por ter perdido amizades que nunca tive (exceto na minha imaginação), por ter perdido um emprego que na verdade nunca me foi garantido mas que eu amava, por ter perdido o brilho nos olhos e por ter sido esmurrada psicologicamente por pessoas próximas, eu me levantei. Levantei, e em meio a poeira que não me deixava enxergar um passo diante do meu nariz, eu tinha Ele como meu condutor principal.

Deus nunca deixou faltar luz nos caminhos em que passei. Mas Ele também nunca prometeu que esse mesmo caminho seria imune de pedregulhos. Pisei descalça nesse caminho de pedras, sangrei. No sentido figurativo. Desidratei de tanto chorar até que me faltaram as emoções. E pode apostar: sentir dor é bem melhor do que não sentir nada.

Então, um dia em que estava encharcando de lágrimas a roupa do meu noivo pela milésima vez, ele me disse:
– Agora você pode ser tudo o que você quiser.
E eu chorei mais. Porque as amarras estavam em mim, e não na situação. Eu travei meus pés onde já não poderia enraizar, e não ter raízes me deu mais medo ainda.

Querido ano de 2017, estou escrevendo esse texto para você com seis meses de atraso, mas esse tempo foi necessário para que eu compreendesse algumas coisas.

Obrigada! Você foi a minha grande oportunidade de me reconstruir enquanto pessoa. Ser humano. Me redescobrir como alguém que independe de rótulos. Não sou mais “a Ana do jornal” ou “a Ana da assessoria”. Em 2017 a dor me fez parir a felicidade de ser Ana Luiza Colombo Verzola.