Somos todos loucos aqui

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Para variar, a escrita tem sido meu melhor remédio desde sempre. É aqui, por exemplo, que nesse momento eu vou gritar tudo o que está entalado no meu peito. Porque às vezes tenho a séria sensação que estou aos poucos enlouquecendo. Já perdi as contas de quantas vezes me imaginei levantando, jogando algo na parede e gritando a plenos pulmões. Bem cena de novela mesmo, sabe?

Mas eu sei que preciso ter autocontrole. E como é difícil ter autocontrole! Em vez de arrebentar coisas na parede cinematograficamente, eu me levanto plena, vou ao banheiro e desabo. Também perdi as contas de quantas vezes fiz isso. O nome disso é sofrimento. Causado pelas outras pessoas ou por mim?

O quanto eu sou responsável pelo meu sofrimento? O quanto eu permito que as pessoas façam o que bem entendem, infrinjam o limite da educação e me cutuquem com um espeto? Quanto tempo eu me permiti sangrar sem reclamar. Apenas para ser forte. Apenas para não me erguer com um baleiro nas mãos e arremessá-lo nas paredes?

No fundo eu só queria que o baleiro fosse a representação das minhas frustrações. Dos gritos que eu não dou. E que no momento em que eu arremessá-lo contra o concreto, tudo se desfaça. Tudo termine em cacos. Acabe.

O quão eu já estou louca e vendo coisas?

Será que estou no meu estado normal?

Me pergunto: será que estou exagerando?

Mas em quantos ditos exageros perdi um pouco de mim, porque em geral as pessoas não pensam que estão exagerando. Estão sendo expansivas.

Me diminuo para que a loucura do outro não me encontre com tanta frequência.

Estou cada vez menor.

Sou fraca.

Deveria aguentar firme e forte. Porque ser forte é a característica das pessoas de sucesso, ouvi dizer.

Mas até que ponto vou permitir que minha própria força me machuque?

O sofrimento, de todos os lados, é ocasionado por mim. Tenho brechas que permitem os cutucões. Preciso ser forte, me blindar.

Não consigo por vezes me esquivar da loucura alheia. Sou louca também. Mas estou me dissipando. Me destruindo. Permitindo. Fazendo.

E cada vez menor.

Onde está a minha força?

Ao meu eu de 17 anos

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Li um texto essa semana que era uma carta de um eu de 21 anos escrevendo para o eu de 11 anos. Achei o exercício sensacional, transformador. Porque quando mais novos, somos repletos de expectativas da vida adulta e quando chegamos lá a tendência é… Se frustrar. O texto é do Chris, e você pode ler clicando aqui.

Vou seguir a lógica de dialogar com o meu eu de 10 anos atrás. Então eu vou pegar a Ana de 17 anos pela mão, quase de forma maternal, e pedir para ela sentar ao meu lado porque eu tenho uma história sensacional para contar a ela. A história de como os anos seguintes vão transformar completamente a forma como ela enxerga o mundo.

Preciso dizer que aquela visita à Mostra de Profissões do Cesumar, que inclusive você estava trabalhando por meio do Rotary, será decisiva para decidir o seu futuro. Eu sei que muitos dos seus amigos nesse momento estão focados no vestibular, e que muitos vão dizer depois da mostra que Jornalismo não é uma opção muito viável.

Você em breve vai entrar na redação do O Diário, tremendo de medo e suando frio para dar uma entrevista falando sobre o trabalho social desenvolvido pelo Interact. Essa entrevista será publicada em um espaço dentro do caderno de cultura. Deixa eu te contar uma coisa: você vai trabalhar nesse lugar, começando inclusive no caderno de cultura como estagiária. E esse lugar vai ser palco para muitas realizações pessoais e profissionais na sua vida.

Não me olhe incrédula, menina. Você vai fazer tudo isso, e eu nem vou dar spoiler porque será surpreendente demais. Você não perde por esperar!

Eu sei que hoje você só queria ter voz para falar o que você acha que é importante para o mundo. Mas será muito melhor: você dará voz a muitas histórias e muitas pessoas. Vai ser instrumento de intermediação de muitas causas, e vai ajudar muitas pessoas através desse ato. Trabalhar no jornal será uma das suas escolas de vida.

Então quando disserem que não tem campo em jornalismo em Maringá para que você repense sua escolha, faça exatamente como você vai fazer: ignore. Aliás, você vai ter de aprender a lidar com vários comentários negativos sobre as suas decisões, mas ouso dizer que hoje eu tenho mais orgulho de quem você foi do que você teria orgulho de quem se tornou. Você é forte. Destemida. Corajosa. Céus, como você é corajosa. E você vai se superar ano após ano.

Muitas pessoas próximas não vão gostar do seu jeito e da forma como você encara o mundo. Mas tem sido assim desde sempre, não é? Eu sei que hoje você se machuca e se fecha. Mas você vai superar tudo isso, embora sua autoestima ainda fique camuflada por um medo assombroso de se aceitar como você é.

Você vai conquistar seu espaço.
Dificuldade após dificuldade.
Mas vai.

Eu sei que aí atrás, nas gincanas do colégio, você fica às sombras tirando fotos dos colegas com sua câmera Sony, atualizando o perfil no Orkut da turma e fazendo artes de divulgação das atividades para colar no mural da escola.

Pelos corredores você sempre escuta alguém elogiar e perguntar quem será que está fazendo isso. Mas você é extremamente tímida para dizer que está por trás dessas pequenas e notáveis ações. Você vai continuar tímida, mas agora sem muito medo de expor suas opiniões e ideias. Sua sinceridade aflorada com o tempo vai assustar muita gente, mas também vai te blindar de muitos sofrimentos.

Sua professora de redação Sonia será imprescindível nessa etapa, assim como sua primeira professora Lígia foi. Você vai tomar ainda mais gosto por escrever com esse incentivo fundamental.

Talvez sua sinceridade também te faça sofrer, porque em geral as pessoas pedem por ela, mas quando escutam, ficam bravas. Te confirmo já uma suspeita sua: as pessoas são estranhos universos paralelos, cheios de problemas e medos, tentando conviver em harmonia em conjunto.

Vai dar ruim em vários momentos. Mas a vida é basicamente assim. Um eterno quebra-cabeças de sentimentos e comportamentos.

Eu sei que hoje você é meio rebelde sem causa, se acha um patinho feio e mal tem coragem de se olhar no espelho. Embora o Interact te dê um sentido na vida, você não tem muita fé. Fé em si mesma, nas pessoas, nos relacionamentos e, claro, em Deus.

Aqui na frente você vai encontrar uma Ana casada, crismada (não adiantou fugir, viu?), autora de um livro-reportagem e com uma carga de experiência proporcionada pela profissão quase que indescritível.

Sim, você ouviu direito: casada. Nem me venha com esse papo de que não vai casar, que acha que relacionamento não vinga, que se for um dia para acontecer, no máximo vai morar junto e pronto. Nesse exato momento você está cuspindo pra cima e esse cuspe vai cair direto na sua testa. Você vai rir disso depois.

E sim, você vai casar. Na igreja. Seu primo de segundo grau vai ser o padre responsável por realizar a cerimônia. Sim, ele voltou da Espanha. E não, não vai casar com nenhum carinha de banda. Ele não tem tatuagem, não tem piercing, nem tem o cabelo comprido. Ele é um ano mais novo que você – e você vai ter que engolir isso, nada de falar que prefere gente mais velha. De velha já basta a Ana que habita na sua cabeça.

Ele não escreve versinhos com rimas, nem vai compor uma música sobre vocês dois. Ele não tem absolutamente nada do que você buscava porque sinceramente, o que diabos você está buscando, Ana? Mas vou te adiantar: ele vai transformar sua vida. Daqui uns anos você vai fotografar bandas… (Sim, vai fotografar!) E enquanto seus olhos estiverem focados em buscar alguém no palco, você vai descobrir depois que ele estava ao seu lado, na plateia.

Bem pertinho.

Durante vários anos vocês vão se cruzar pelos mesmos caminhos sem se verem. Vão frequentar os mesmos espaços, terem amigos em comum, mas não vão olhar um para o outro.

Respeite. Esse é um tempo imprescindível de preparação.

Porque quando o olhar de vocês se cruzarem, ele vai virar seu mundo de cabeça para baixo. Você, que desde os 17 anos – ou menos – se considera uma pessoa perdida e com a cabeça bagunçada… Vou te contar uma coisa: ele vai te ajudar a organizar tudo. Você não vai mais se sentir perdida ao lado dele. E é basicamente isso que você precisa saber por enquanto.

Não tenha medo.

Quando o Valenciano te der um livro chamado “Juventude Consciente”, que fala sobre política, leia com atenção. Eu sei que embora você tenha tirado o seu título de eleitor há pouco tempo, você não vai ler sobre política. Mas ó: no futuro vai procurar esse livro para rever vários pontos dele. Trabalhar com política será outra escola importante na sua formação.

Você também vai trabalhar em uma campanha eleitoral, e nem vai ser como mesária. Nesse ponto você vai sofrer bastante, mas vai aprender finalmente a separar amizade de coleguismo. Não vou falar mais sobre porque você tem transtorno de ansiedade – e não sabe ainda – e vai ficar muitíssimo mal com isso.

Sabe as noites em claro e tardes infinitas que você passa em fóruns buscando aprender a mexer no Photoshop? Continue assim. Daqui exatamente 10 anos você vai agradecer muito a curiosidade da Ana adolescente, porque seu conhecimento básico vai ajudar muito no seu trabalho atual.

Você vai continuar curiosa. Buscando aprender sempre mais. A mulher que você vai ser tornar ainda é cheia de medos, ainda é insegura e talvez menos corajosa do que você é com 17 anos. Mas ela está orgulhosa e prestes a te dar um abraço.

Vem, Ana. Não vai ser fácil, mas eu prometo que será incrível.

A Revolução dos Bichos

Você chega em casa acelerada perto das 21 horas, recolhe o coelho da área externa e vai limpar a bagunça que ele fez por lá, rezando pro xixi dele não ter manchado o azulejo. Transfere ele para o jardim de inverno, coloca o leite para ferver, liga o computador. Abre a porta da frente para o Ricky ser cachorro e latir um pouco no portão. Espera o leite terminar de ferver e deixa esfriando. Volta para o computador e começa a correr com os trabalhos atrasados.

Retorna para o leite, agora morno, e experimenta fazer uma receita de iogurte natural. Embala o recipiente de vidro com um pano e deixa repousando – alguém tem que repousar nessa casa – por pelo menos 8 horas. Que saudade ter 8 horas de repouso! Mas tudo bem, iogurte, você merece. Vai lá descansar. Enquanto isso eu sento no computador.

– Amor, tá terminando?
– É o último – repeti disso pela 3ª vez sabendo que não seria o último.

O gato da vizinha tentou entrar de novo em casa. Eu só fico pensando no estrago que ele faria com uma chinchila, um coelho e dois esquilos. Ricky volta todo pimpão sem honrar a ração que come – nem assustou o gato, esse catioro. Olho novamente para a cara deslavada dele… Marrom. Suspiro, nem quero saber como que isso aconteceu.

Desligo o computador finalmente, vou tomar banho, lavar a cabeça depois de ficar com o cabelo preso por 4 dias seguidos sem ter tempo hábil para lavá-lo. Seco. Nem acredito que vou deitar na cama senhor! É 1 hora da manhã.

Despertador toca. Marido olha o jardim e descobre de onde veio a nova coloração do Ricky: de um jardim cavoucado. Roupas no sofá, brinquedos do cachorro por todos os cômodos, pó fazendo companhia nessa convivência harmônica. Livros empilhados na poltrona esperando uma solução. Eu sento na mesa para tomar café – querendo deitar em posição fetal debaixo da mesa e esperar uma solução divina para a bagunça acumulada de duas semanas trabalhando de domingo a domingo – e ouço um barulho esquisito, olho para o lado e lá está ele: Bilbo, o coelho idoso, em cima do vaso de costela de Adão… Devorando a terceira folha. Corro na tentativa em vão de salvá-la, mas cheguei tarde.

Me rendi à revolução dos bichos, tudo bem, a casa é toda de vocês.

Sobre balões e pessoas

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Costumo dizer que amanheço todos os dias com o meu balãozinho da motivação cheio. Penso diariamente: HOJE VAI SER INCRÍVEL! E por vezes (mais constante do que eu esperava, é verdade), sinto esse balãozinho estourar no decorrer do dia e a motivação ir ralo abaixo. Ou sumir no ar, como preferir. Como um punhadinho de areia que pego todos os dias cedo e, no decorrer do dia, a areia se esvai por entre os dedos até sobrar poucos grãozinhos grudados no suor da mão de uma pessoa tomada pela ansiedade de mais uma vez permitir que venham com um palito de dentes e estourem meu arsenal motivacional.

Aí nem sempre estourar os tímpanos com músicas que eu gosto resolve o problema. Em geral isso só me protege temporariamente de tropeçar mais uma vez em obstáculos que surgem e me espetam. Me sinto frágil. Me transformo no meu próprio balãozinho. É, é isso. Eu sou o balãozinho.
Talvez no sentido figurado.
Mas possivelmente no sentido real.

Hoje mandei uma mensagem animada de bom dia para a minha mãe, e ela me disse:
– Fica sempre assim, feliz, porque a vida fica mais leve. Não deixe que estourem.

Ela sabe da metáfora do balãozinho, claro.
É a minha mãe. Minha melhor amiga. A quem eu recorro a cada desespero ou felicidade. É a pessoa que durante o dia me escuta e, perto da meia-noite, liga para o meu marido preocupada por eu não responder o telefone. Ela só quer saber se eu melhorei.
Ela é incrível.

Ok, enfim, voltemos.
Respondi:
– Já me desviei de duas situações hoje que podiam estourar meu balão!

É como aquelas brincadeiras de cuidar do ovo como se fosse algo precioso, sabe? Talvez eu devesse trocar a metáfora do balão pro ovo, porque o balão não faz muita sujeira quando explode. O ovo faz uma meleca danada e, se não limpamos direito, lembramos dele o resto da semana.
Fica impregnado no ar. Na gente. Martelando nossa cabeça: você deixou o ovo quebrar, deixou o ovo quebrar. De novo. Deixou. O. Ovo. Quebrar.

Mas eu acho o balão mais simpático.

Aprendi que preciso cuidar da minha motivação para me manter sempre pra cima. É claro que sozinha jamais conseguiria: isso requer apoio familiar, apoio de amigos, meu próprio apoio e policiamento.

Como é difícil se manter em constante motivação quando parece que o mundo lá fora quer simplesmente jogar o seu balãozinho em um quarto repleto de porco espinhos. Eu sei o que alguns vão dizer: depende mais de você do que do outro permitir que o balão estoure.

(Donos da verdade utópica)

Eu diria que depende muito: quando estamos vulneráveis, é inevitável. Mesmo se blindando, as coisas acontecem.

(Eu não sou dona da verdade utópica. Pode ser diferente com você. Se descobrir como sobreviver aos espinhos diariamente sem se deixar um diazinho sequer abater… Me conta? Por favor?)

Elas nos atingem.
E dói. Machuca. Nos faz querer parar, nos recolher como animais feridos que precisam de um tempo para lamber as próprias feridas.

Via de regra, a gente volta. Estaca zero. Temos um estoque grande de balõezinhos. Tem dia que consigo, com uma vitória fora do comum, manter ele intacto. Longe de objetos pontiagudos. Mas tem momentos que simplesmente… Ah, acontece. Quem nunca, não é mesmo?

Um dia de cada vez.
Como diz meu pai: dorme, amanhã é um novo dia.
Hoje é.
E é sexta-feira!
É uma linda sexta-feira, por sinal.
Com balõezinhos cheios. Coloridos. Vibrantes. Ansiosos pela sobrevivência – e que ela dure o fim de semana.

Que o balãozinho de vocês sobreviva às adversidades. Que no dia de hoje você possa alimentar mais o gás hélio que os palitos de dente.

Se não der, tudo bem. Amanhã vai ser diferente.