ProcrastinAção

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Um belo dia resolvi mudar… E começar todos os meus textos com música. É, pois é. Tudo para desviar do foco, esse meninão que sempre se esconde quando mais precisamos dele. É sobre isso que gostaria de falar hoje, não exatamente sobre foco, mas algo que o embanana bastante: a procrastinação. Em uma rápida pesquisa em um dicionário online, esta palavrinha tenebrosa significa deixar para depois. Adiar. Postergar. Demorar.

Por que estou tratando disso hoje? Bom, provavelmente porque estou deixando alguma atividade importante que eu deveria terminar de lado só pelo simples prazer da procrastinação. Enfim, desde que passei a encarar o freelance como prioridade da minha fonte de renda, a procrastinação aparece de brinde em certas ocasiões. Em especial quando se escolhe trabalhar em casa. Tem lá seus benefícios: você organiza seu horário (ou não), trabalha de shorts, trabalha com o coelho solto no homeoffice brincando. Mas ainda assim, trabalha.

E estando em um ambiente tão literalmente familiar, o quarto é logo ali. O sofá nunca pareceu tão sedutor. A televisão implora ser ligada. Os seriados atrasados ficam berrando por atenção. Essas coisas normais de casa de gente de carne e osso. Aí encontrei minha grande dificuldade: como não procrastinar? Com ela, vieram os amigos Penalidade e Pessimismo. Eles sempre me deixavam com uma culpa quilométrica na consciência por simplesmente deixar para mais tarde.

Eis que me deparo esses dias em um texto em que, vejam só, a procrastinação é defendida! Finalmente não fora julgada mal! E não podia deixar de concordar, em partes, com o que li: quem vive de criatividade, pausas são estritamente necessárias para deixar o cérebro exercer a função do nariz e respirar aliviado por desligar um pouco do foco. Em vez de atrapalhar demasiadamente o ritmo, aqueles suspiros ao longo do dia viriam a beneficiar o trabalho final (não queremos forçar a barra com a nossa cabecinha e fundir os parafusos que restam, não é mesmo?).

Portanto, amiguinhos, não crucifiquem a procrastinação! Vamos erguer nossas mãos segurando canecas de cafés e dizer: ela é, por vezes, necessária (só não vale escorar nisso e procrastinar a vida porque sim, ok?). Deixa a Ana seguir o fluxo do início e fim de texto musical e dizer, à la Rita Lee, em respeito aos momentinhos que nascem da procrastinação: um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer!

Veja o sol dessa manhã tão cinza

typewriter-801921_1280Todos os dias no meu ritual de acordar e colocar os dois pés no chão de uma vez – manias, manias, afinal, por qual motivo começar com o pé direito sendo que eu posso começar com os dois? – sempre me lembro de uma promessa um bocado empoeirada de voltar a escrever. Mas que diabos, Ana, você é, entre todas as atividades que se mete a fazer, jornalista. Já escreve o suficiente, não? Mas e aquela enxurrada de palavras que vêm à mente quando menos se espera? Então me coloquei à disposição do acaso. Quando fosse a hora, uma ideia genial chegaria, eu escreveria um texto bacana, e ficaria assim. Ao acaso.

Mas esses momentos de “Eureka!” parecem cada vez mais distantes. Lembrei-me de um conselho dado pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes em uma entrevista que fiz, que a escrita se desenvolve com o hábito. Portanto, além dos dois pés no chão quando acordasse, deveria colocar também as duas mãos na massa. Parece tolo, mas se quero textos, tenho que começar a escrevê-los. Independente sobre o quê. É assim que nasce o hábito, no final das contas. Sem esquecer dos textos. E onde estava eu com a cabeça que não tinha me atentado a essa continha básica?

Perdida entre sonhos, planos, listas de coisas para fazer, arrumar a casa, cuidar do bolo que está assando. Apostar na minha própria capacidade de me reinventar tem ocupado bastante tempo. A cabeça estava processando talvez meu olhar na chuva que cai calmamente lá fora. Na queimadura que está ardendo no meu braço esquerdo, desastrada que sou ao abrir o forno para espetar o bolo. A concentração está inebriada pelo barulho aleatório da televisão, que ultimamente têm me dado a sensação de que não estou tão sozinha em casa, apesar dos quatro roedores e dois lagomorfos habitando o mesmo lar.

Então resolvi começar do começo: abrir o word, encarar a tela em branco e me concentrar a escrever sobre qualquer coisa. Ou nada. Mas ainda assim, escrever. E cá está um desafio semanal: escrever sobre o que der na telha, apenas pelo gosto de escrever, descrever, buscar refúgio nas palavras para tentar reorganizar as ideias e os pensamentos. Transfigurar a realidade em linhas – ou mergulhar de vez em ficção quando a realidade não der trégua. Vai lá, Ana! Escreva. Pieguice por pieguice, continuando o Legião Urbana que deu título ao texto sem nexo: temos nosso próprio tempo. 🙂

Bate-papo sobre Livro-reportagem na 3ª FLIM

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Em Maringá começa nesta terça-feira a 3ª edição da Festa Literária, 1ª Internacional. E, para os interessados, eu e meu amigo e parceiro de escrita Cléber Gonçalves vamos conduzir um bate-papo no dia 14, quarta-feira, às 15h30, sobre o tema “Livro-reportagem”. O encontro vai ser no auditório Hélio Moreira e a entrada é gratuita. Vamos aproveitar essa oportunidade para conversar um pouco sobre nosso processo de apuração, produção e concretização do livro-reportagem “Sicride: Um retrato das ações contra o desaparecimento de crianças no Paraná”, que fizemos como Trabalho de Conclusão de Curso.

Mesmo após quatro anos desde que finalizamos o livro e a faculdade de jornalismo, esse trabalho sempre vêm à tona: seja encontrando nossos entrevistados nos locais mais improváveis até a releitura da obra e a compreensão do nosso próprio amadurecimento enquanto profissionais. Hoje temos uma certeza de que, se o livro fosse feito agora, talvez o caminho percorrido fosse bem diferente. Nosso olhar agora é outro. Mas verificar que mesmo enquanto estudantes enfrentamos obstáculos como distância, tempo de produção e inexperiência, e conseguimos concluir com êxito nosso propósito nos dá aquela ponta de orgulho de que valeu à pena.

Nosso trabalho foi apresentado no Intercom Sul organizado em Santa Cruz do Sul (RS), finalistas com outros quatro livros-reportagens produzidos por alunos dos três Estados da região Sul no Expocom. Conquistamos ainda o segundo lugar do Prêmio Sangue Novo do Jornalismo Paranaense com o projeto, que também foi apresentado na 1ª Festa Literária de Cianorte. Mas o que certamente me deixou bem feliz foi que, após o envio das cópias finalizadas para nossos entrevistados, recebemos a seguinte mensagem de Arlete Caramês, mãe incansável e guerreira incurável da causa dos desaparecidos em nosso Estado:

Ola Ana Luiza

Bom Dia,

Quero cumprimentá-los pelo livro. Achei a melhor edição de um livro sobre o desaparecimento de crianças. Voces discorreram muito bem sobre o assunto. Estou torcendo por voces. Merecem ser premiados.

Um grande abraço

Arlete

Arlete foi nossa entrevistada fundamental para a condução do livro conforme foi escrito, porque ela quem liderou por muitos anos as reivindicações sobre a busca por crianças desaparecidas. A motivação? Seu próprio filho, Guilherme, desapareceu inesperadamente em 1991. Arrumando nossas papeladas sobre esse trabalho para a FLIM, a nostalgia foi inevitável, então perguntei para o Cléber o que significou para ele realizar esse projeto, e eis a resposta que compartilho com vocês.

Participar da construção do livro significou muitas coisas para mim. Mas a principal aprendizagem que tive é que existem muitas histórias a serem contadas; existem personagens e iniciativas que esperam por um olhar diferenciado, pois fazem diferença no nosso dia-a-dia. E essa, talvez, seja a principal função do livro-reportagem: a de dar voz e vez, de maneira aprofundada, para o assunto que ainda não teve o devido destaque, mas o merece.”

Essa resposta sintetiza muito do que buscávamos enquanto quase-jornalistas e reitera a importância do olhar mais humano e aprofundado para boas histórias. Bom, fica o convite para quem quiser conversar, esperaremos vocês! 🙂

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Os 25 estão chegando!

balloons-388973_1920Dizem que depois dos 18, a vida passa muito depressa. Ansiamos tanto em chegar a essa etapa para comprovar na pele se essa afirmação é, de fato, verdadeira, não é? Os anos vão passando de maneira apressada, realmente. Me peguei pensando esses tempos no meu primeiro ano de faculdade e todos aqueles anseios que me acompanhavam junto daquela bolsa a tira colo de menina onde eu carregava meu caderno de dez matérias e as canetas bem organizadas dentro de um estojo.

Eu usava um celular Nokia que não tinha grandes funções que não fossem mandar mensagem, tirar umas fotos borradas e fazer ligações. Meu primeiro gravador, como recém estudante de jornalismo, era um Panasonic de fita k7. Quando comprei o digital foi o máximo. Achei um grande feito quando conseguimos fazer um grupo no MSN para a turma se comunicar. Bom, hoje as pessoas caçam Pokemóns, mesclando real e virtual, e batalham para se livrar de tantos grupos de Whatsapp.

Acho que cheguei a fazer um texto quando completei 18… E então não quis mais falar sobre idade. Até chegar aqui. Muita água já correu debaixo da ponte, mas a sensação é que muito ainda falta para passar e eu me questiono o que eu poderia dizer em um texto sobre os 25. Logo eu, que sempre tive muita ansiedade diante dos acontecimentos, que me perdia em tudo o que queria fazer e me embananava para colocar em prática tantos bons planos. Tenho a impressão que não fiz muito até aqui, mas olhando atentamente, minha estrada até que é longa.

Confesso, não foi nada daquilo que eu esperava quando via alguém com 25 lá atrás. Encontrei muitas respostas para minhas indagações no meio do caminho, mas esbarrei em um número muito maior de dúvidas ainda não respondidas. Descobri que era mais fácil fazer amigos quando era adolescente e que, com o passar dos anos e o aumento nos afazeres, a vida nos afasta de muita gente. Manter contato e a célebre expressão “vamos marcar de se encontrar” são desafios frequentes.

Estou trocando, aos poucos, as festas de formatura por festas de casamento de amigos, aniversários de crianças e chás de bebê. Quando estou com medo, é com medo mesmo que vou em frente. Acordar ao meio-dia me parece uma realidade muito distante: aquela coisa de que quanto mais velho você fica, menos você dorme, me parece real agora. Mesmo quando chove e você está liberado para dormir até mais tarde. Dez anos atrás, esperava ansiosamente pelo fim de semana em que vararia as noites no computador e na internet. Hoje a última coisa que quero por perto é computador, smartphones e afins quando chego em casa do trabalho e aos fins de semana. Desintoxicação tecnológica é preciso.

Até aqui, percebo aos poucos o que realmente tem valido a pena. Os encontros com amigos são escassos, mas você percebe que as amizades que perduraram são as que realmente importam. Infelizmente, você tem mais colegas que amigos (antes também era assim, mas você estava ocupado demais fazendo mais colegas para se dar conta). Sua família vale mais que qualquer hora desperdiçada em discussões. Adquirir paciência é uma nota mental diária para as adversidades do dia a dia. A cautela também passa a te fazer companhia no lugar do impulso.

Parece um dramalhão e tanto esse peso e medida que estou fazendo, e então lembro de um conselho que meu pai sempre me dá: ainda há tempo de quebrar a cara, cair e começar de novo. As situações mudam depressa demais, difícil mesmo é acompanhar e entender que não estaremos sempre jogando na mesma posição. O foco agora aos 25 não é fazer por fazer: agora é fazer para dar certo.

Atocha, arrocha, afrouxa

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Foto: Roberto Furlan

“Ninguém quer a tocha!”, ouvi muita gente falar. É gente preparando balde, ameaçando usar extintor que “fomos obrigados a comprar e agora não é mais necessário”. Aí chega o Ricardinho, carregando o símbolo dos Jogos Olímpicos. Sorrisão de orelha a orelha. Ouço gritos. Correria para todos os lados para tirarem uma selfie. Muita gente conseguiu apenas uma foto com a “muvuca” de fãs e imprensa. Curiosos para todos os lados. Na plateia, crianças, adolescentes, adultos e idosos. Cãezinhos no colo. Os olhares todos direcionados para a Catedral, símbolo de Maringá, onde está a concentração. Algumas poses com o tal símbolo, os olhares acompanham cada movimento.

Na pista bloqueada para a passagem, caminhões de som atravessam acompanhados de fanfarra, pessoas dando tchauzinho por cima do veículo da Coca-Cola e de outros patrocinadores. Música animada dita o tom do momento. A tocha é acesa, começa o revezamento. Forma-se uma corrente de policiais para conduzir o atleta por um curto percurso até a estrutura montada para que ele atravessasse até a próxima pessoa. Vai passar, no final das contas, por 39 mãos de representantes de nossa cidade. A histeria é geral, muitos correm, tropeçam uns nos outros, querem acompanhar Ricardinho carregando a Tocha. O destino final é o estádio Willie Davids, ainda há algum trajeto a ser percorrido.

Converso com um jornalista, rimos dessa observação sobre a grande movimentação no entorno do evento, ele comenta: “Garanto que você queria estar agora na redação, sentadinha em frente ao seu computador, não é?”. Eu afirmo com a cabeça, mas também pensando quão legal foi estar ali, até para constatar a confusão no discurso e atitude de muita gente. Respondo uma frase que sempre afirmo: “O brasileiro deveria ser estudado”. Ah mas que diabos as “OlimPIADAS”, como dizem, no Brasil, com tanto desastre acontecendo, não é? É, não tiro a razão de ninguém. Mas discurso de ódio nesse momento vai servir para quê mesmo? Protesto nessa hora é não prestigiar, claro. Ameaçar fazer “n” coisas com a tal da tocha. Atocha, atocha, atocha. Poderia ser um arrocha, já que está em solo brasileiro.

Eis que me vejo diante da realidade descrita ainda como utopia pelo colega jornalista. Estou sentada diante do computador e refletindo sobre tudo isso. O atraso da tocha, e mesmo assim centenas de pessoas posicionadas ali para ver a bichinha passar. Atraso de algumas horas, viu? A bonita ia chegar em Maringá às 9 horas, chegou passava das 10. Abro meu Facebook, aquela rede social em que até pouco tempo atrás presenciava uma guerra entre pessoas contra e a favor da tocha. Minha timeline se resume agora a selfies com o Símbolo Olímpico, vídeos do revezamento, pouco vejo sobre água e o escambau para ser arremessado contra a tocha. Como se os atletas, que tanto batalham, muitas vezes sem patrocínio, para carregar no peito a bandeira de nosso País, não merecessem atenção, respeito e apoio nesse momento único.

A raiva do brasileiro é acumulada por várias situações, e a tocha veio para incendiar toda essa gasolina que estava arremessada no histórico do País dos últimos tempos. Gasolina sim, que tá caro. E o preço que o brasileiro paga é caro. Paga caro pelo discurso raso, por não arcar com as consequências do que afirma que vai fazer – e não faz. A histeria continua, afinal, a Tocha Olímpica está passando por Maringá. Ouvi gente falando de orgulho por presenciar esse momento, aglomerações em prédios para também observar. Ué? O brasileiro precisa realmente ser estudado.

No final das contas, sentadinha aqui diante do computador, comendo meu horário de almoço para escrever essas linhas, passo a mão pelo meu cabelo. Que mané jogar coisa na tocha. Quem levou no final fui eu, uma bela de uma cagada de passarinho na cabeça. Minha avó diria que é sinal de sorte. Que seja!

“Não escrevemos coisas que as pessoas querem ler, mas o que elas precisam ler”

daniela arbexQuando ganhei o livro “Holocausto Brasileiro”, praticamente engoli a obra em dois dias. Terminei a leitura com a vontade de conversar com a autora, Daniela Arbex, quase que imediatamente. Eis que os anos passam e, o presente que a vida me deu – ou a profissão me deu? – foi a oportunidade de entrevistá-la sobre suas obras, a segunda, “Cova 312” lançada este ano. O resultado do bate-papo foi publicado no jornal O Diário e, como o impresso restringe o espaço de gente “palavruda” como eu, publico aqui a entrevista na íntegra.

Algo que me chamou a atenção foi que a Daniela comentou da preocupação que a mãe dela tinha logo no início da profissão com a exposição a determinados assuntos que a filha teria de enfrentar. A exemplo da primeira reportagem que cobriu no jornal onde trabalha até hoje, o Tribuna de Minas, sobre crianças abusadas, ela comentou: “Minha mãe disse: ‘minha filha, isso é tão chocante. Não quero que você escute essas coisas’”. Hoje mãe de um menino, Diego, vejo como as gerações mudam a forma de encarar certas situações: seus livros são dedicados para que o pequeno conheça essas histórias.

As obras de Daniela nos ensinam a importância de encarar nossas barbáries para que isso não mais se repita no futuro. Um corajoso legado para esta e as próximas gerações.

Segue, então, o texto publicado no jornal (com adicionais!):

arbexA jornalista e escritora mineira Daniela Arbex completa, em janeiro de 2016, duas décadas dedicadas ao jornalismo. A marca que construiu ao longo deste tempo enquanto repórter do Tribuna de Minas, é a de reunir boas histórias e trabalhar com afinco no processo de produção de um jornalismo investigativo de qualidade. Em Maringá no último fim de semana para ministrar duas palestras na Unifamma, a jornalista conversou sobre suas duas obras, “Holocausto Brasileiro” e “Cova 312”, publicadas em formato de livro-reportagem.

Em “Holocausto Brasileiro”, livro de estreia que se tornou best-seller, a premiada jornalista resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da história do Brasil: a barbárie e a desumanidade praticada no maior hospício do País, conhecido como Colônia, localizado na cidade mineira de Barbacena, onde mais de 60 mil pessoas morreram. Já em “Cova 312”, a mineira conta a história real de como as Forças Armadas mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com o corpo. Ela reconstitui toda a história do jovem e continua investigando até chegar na anônima Cova 312, que dá título ao livro.

Os livros são frutos de reportagens especiais sugeridas e escritas por ela ao jornal onde trabalhou durante toda a vida. Além das obras, a autora se lançou recentemente na área documental junto do diretor Armando Mendz: está prevista a estreia na HBO para o primeiro semestre do ano que vem o documentário que explora as histórias que surgiram após a publicação de “Holocausto Brasileiro”. Em entrevista concedida por telefone, Daniela fala de seu processo de apuração, da importância em se apostar nas grandes reportagens e da importância em dar voz às pessoas anônimas na construção diária de uma sociedade mais justa.IMG_4543

Geralmente a história tende a destacar mitologicamente alguns personagens que se sobressaíram em determinados períodos, e nesse aspecto o jornalismo nos permite resgatar outras visões. As suas duas obras apresentam ao leitor versões até então deixadas de lado. Qual a importância de dar voz aos anônimos?
Meus livros são exemplo disso. Contam histórias que não estão nos livros oficiais, e isso faz com que esses personagens reescrevam a história. Primeiro para que essas histórias ganhem visibilidade, segundo que nosso papel [enquanto jornalista] é exatamente jogar a luz às questões que estão na marginalidade. Quando se fala do “Holocausto Brasileiro”, se coloca em discussão a questão da saúde mental, do tratamento, modelo de atendimento, o livro mostra todas essas questões e está cumprindo o papel dele. Se você pensar que faculdades do Brasil inteiro, vários cursos – direito, medicina, sociologia, psicologia, comunicação – estão interessados, é maravilhoso. Isso mostra o quanto as histórias estão sendo úteis para que possamos ver o quanto a indiferença gera a barbárie, que não podemos nos omitir. Quanto nossa cultura é da exclusão social, que os diferentes ainda são colocados à margem. Este é o serviço que podemos prestar: fazer as pessoas refletirem. Essa semana que passou publicamos uma crônica que foi compartilhada 1,5 mil vezes nas redes sociais. E uma das pessoas disse: tá bom, mostrou o problema, mas qual a solução? A solução é essa, falar do problema. Colocar o dedo na ferida, fazer as pessoas pensarem que elas têm de dizer ‘não’ para certas coisas. No caso, a matéria falava que estão fazendo testes para admitir crianças para serem aceitas na educação infantil e ensino fundamental. Isso é uma loucura. Estão fazendo seleção. São crianças. Precisamos dizer não para essas coisas e a solução é essa: iniciar uma reflexão para então gerar a mobilização. É preciso de todo um processo de amadurecimento e este é o começo de uma solução.

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“Cova 312” Publicação: 2015 Gênero: Reportagem Páginas: 344 Editora: Geração Editorial Valor médio: R$ 39,90

Tanto em “Holocausto Brasileiro” quanto em “Cova 312” você lida com o tema do confinamento e da tortura. Para escrever essas histórias, lidando com a dor do outro, é inegável o envolvimento do jornalista. Como você se sentiu ao se deparar com situações tão chocantes?
Eu nunca me blindo para escrever alguma coisa. As pessoas sempre me dizem que é necessário ter uma proteção, como entrar em contato com essas histórias assim? Eu me entrego a elas, escuto, me coloco a favor dessas pessoas e me deixo tocar porque assim posso tocar o outro. Não dá para contar essas histórias e ficar imune a elas, isso vai te afetar de alguma e vai transformar a sua história também. Isso é bonito e não tem nada de ruim. Uma das primeiras matérias que eu fiz foi sobre crianças que foram abusadas sexualmente e eu estava ouvindo os depoimentos. Minha mãe disse: “minha filha, isso é tão chocante. Não quero que você escute essas coisas”. E na verdade, isso nunca me afetou negativamente. Não temos que ter medo de encarar as coisas ou ter cabeça de avestruz para enfrentar nossa história. Temos que olhar para ela de frente. Se o Holocausto é a nossa vergonha, temos que falar dele para que isso mude a nossa realidade. Eu nunca tive medo ou temor, porque é isso que me deu tanta vontade de mudar. Fiquei tão chocada que tive vontade de mudar.

Tem alguma história preferida?
Não, todas são especiais e grandiosas, de pessoas que enfrentaram e conseguiram sobreviver. Não tem uma história mais forte que a outra, são todos seres humanos, todos têm suas histórias, valores, complexidades, fraquezas. Só posso dizer que fiquei muito honrada por essas pessoas confiarem a mim suas histórias.

Daniela, você comentou em uma entrevista ao jornal Hoje em Dia que novas histórias surgiram a partir do lançamento do livro e que agora são compiladas em um documentário que será exibido pela HBO. Existe a possibilidade de reunir essas histórias em uma atualização ou segunda versão do material impresso já lançado?
Não é a minha pretensão. Esse livro não conta todas as histórias, ele abre a porta para que as pessoas conheçam essa história. Essas pessoas nunca tiveram voz, nunca foram procuradas e esse mérito é meu e ninguém vai tirar isso de mim. É um livro tão rico e tão poderoso que eu não quero mexer nele. Pode ser que amanhã eu pense diferente, mas vejo que ele está bastante completo, com muito das pessoas. Para mim ele é perfeito, forte e eu não quero arrastar essa história só porque fez sucesso, eu não quero só vender livro. Meu compromisso é com a história e essa história está muito bem contada. E agora com o documentário, esse segundo momento, de bastidor, está contemplado no vídeo, que é uma continuação do livro. O documentário está incrível, acabei de enviar o segundo corte e estou muito feliz com o que conseguimos reunir em um material de uma hora e meia. Vai ser exibido no Brasil e simultaneamente e em mais 20 Países. Nós vamos parar a América Latina.

O diretor Armando Mendz menciona em uma entrevista que na produção do documentário vocês também conversaram com pessoas que não concordavam com o livro. Que tipo de confronto você sofreu após a publicação?
Foi muito difícil ficar 40 dias em Barbacena, fui muito hostilizada na primeira semana. As pessoas diziam “eu não sou nazista, você me colocou como nazista”. Olha que interessante: as pessoas falavam que eu estava contando uma mentira. “Você fala que davam choque nos internos, não davam?”, “Dava sim”, “E tinha anestesia?”, “Não, não tinha. Mas a gente dava com todo o cuidado”. Se você ler o livro, não é bem assim. Fui percebendo que essa revolta não era nem contra a obra, mas de terem participado dessa história e não se darem conta do tamanho da tragédia que fizeram parte. Hoje isso não me incomoda mais. Em um primeiro momento eu sofri. O documentário vai mostrar que o que está no livro é fichinha. E isso vai ser apresentado na voz dos outros. Ainda não fechamos a data de exibição com o canal e o que posso adiantar é: prepare-se para o que você vai ver e ouvir.

Como você conciliou o trabalho na redação com os levantamentos e produções das obras?
A primeira vez, que foi na produção de “Holocausto Brasileiro”, gravei em todos os finais de semana durante um ano para apurar os personagens do livro. Chegava em casa da redação às 21 horas, colocava meu filho para dormir e escrevia até as 5 horas. Fiz isso por um ano e meio. O segundo livro, “Cova 312”, já foi mais complicado conciliar, porque eu tive que viajar muito, pelo País todo e ainda tinha o documentário da HBO para fazer. Fiquei sete meses de licença e em 20 anos de jornal essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Não é muito tranquilo conseguir essa licença, mas pelo fato de ter me dedicado muito pro jornal, ele entendeu o momento. Principalmente porque o documentário vai ter uma visibilidade grande. São pautas que nasceram comigo e desenvolvi aqui. Foram séries de matérias premiadas e temos uma relação muito boa de confiança. Acho que dei muito do meu tempo para o jornal mas o tempo em que eu precisei o jornal também me ajudou.

Pode contar um pouco do seu método de apuração?
Sempre procuro conciliar no meu trabalho depoimentos com documentos. No caso do Holocausto muita gente já tinha morrido, enfim, mas eu trouxe à tona um assunto que o Estado sempre quis deixar guardado, e tudo precisava estar bem documentado. No caso do Cova, muito mais. Sempre trabalhei com a documentação e desenvolvi um método de investigação que uso em todas as minhas matérias. Justamente por trabalhar em um jornal pequeno e um processo grande poder acabar com o jornal, acabei tendo um rigor muito grande, meus chefes sempre foram muito exigentes. Não poderia errar, não tinha o direito de errar, porque a consequência para o jornal seria terrível. Acabei aprendendo a percorrer cartórios, a ler boletim de ocorrência, analisar processos, verificar documentos na Justiça do Trabalho, Justiça Federal e aprendi tudo isso fazendo na prática. Se não fosse o rigor da minha editora, eu não teria desenvolvido esse método. Por ela exigir sempre comprovação, eu tive de aprender a me virar. Hoje é um caminho natural que eu percorro ao fazer uma denúncia. É muito bacana, porque é um método bem artesanal, mas funciona. Demanda muito tempo, exige que você gaste muito a sola do sapato e tem sido eficiente até agora.

Em redações cada vez mais enxutas, como driblar a falta de estrutura para a produção de materiais especiais e qual o peso de reportagens em série no jornalismo atual?
No meu caso especificamente, nunca tivemos maiores recursos ou melhores oportunidades, mas soubemos trabalhar com o que a gente tinha. Então não adianta chorar que o jornal não oferece ou não pode pagar um segurança… Temos de trabalhar com o que a gente tem, e isso me forçou a ser muito criativa nas investigações. Isso é um ponto positivo e mostra que não é necessário ter todos os recursos do mundo para fazer jornalismo investigativo de qualidade. A outra coisa em relação a grandes reportagens: elas são essenciais para a manutenção do jornalismo impresso de qualidade. Se a gente se esquecer disso e com as redações cada vez mais enxutas abandonarmos as grandes reportagens, daremos um tiro no pé. São as grandes reportagens que dão credibilidade ao jornal, agregam leitor, criam mobilização em torno do jornal, um orgulho pelo jornal, que se torna referência a partir disso. No meio dessa crise toda, em um ano que tivemos demissões seríssimas, conseguimos vender um projeto que foi todo mapeado pelo fundador de Juiz de Fora, e vamos refazer o que caminho que ele fez. É uma matéria de fôlego, corajosa e estamos apostando tudo para presentear o leitor ao final do ano, pelo respeito que temos ao leitor e pelo amor que temos pelo jornalismo. É uma luta, sei que para o jornal nesse momento também é complicado, mas a gente sabe que a aposta vai trazer coisas positivas em um ano tão tenso para nós.

Acredita que hoje grandes reportagens perderam espaço em decorrência da internet?
Pelo contrário, hoje vejo reportagens de fôlego na internet. Temos grandes exemplos que jornalismo na internet não é só instantâneo, depende da proposta. O prêmio Vladimir Herzog este ano mostrou trabalhos maravilhosos na categoria da internet, eles não conseguiram dar o primeiro lugar para uma só pessoa, mas para duas, devido à qualidade do material apresentado. Um material riquíssimo, histórias maravilhosas e muito bem apresentadas. Isso é um exemplo para nós do que é preciso continuar sendo feito. A importância de se continuar contando boas histórias e com essas histórias transformar esse País.

Você conta em algumas entrevistas que teve de insistir muito na pauta que resultou em Holocausto Brasileiro.
Trabalho em um jornal pequeno e eu não podia dispor do meu tempo. Quando propus a primeira vez, em 2009, foi quando eu tive acesso às fotos feitas pelo Luiz Alfredo do Colônia. Em 2010 eu também não consegui. Quando foi em 2011, voltando de licença maternidade, a série de fotos completavam 50 anos. Eu disse: é agora ou nunca. Nunca desisti de uma pauta. Sabia que era uma história grandiosa, mas não sabia o rumo que ela tomaria, mas tinha certeza que era uma história que a minha geração precisava conhecer. Descobri que era uma história que o Brasil desconhecia.

Tem projetos para novos livros?
Tenho projetos para próximos livros sim, falando de temáticas sociais. É a minha marca, falar do abuso de poder, essas questões. É o que eu gosto de fazer.

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“Holocausto Brasileiro” Publicação: 2013 Gênero: Reportagem Páginas: 256 Editora: Geração Editorial Valor médio: R$ 39,90

Você revela uma realidade encoberta em “Holocausto Brasileiro”, mostrando o Colônia, local onde 60 mil pessoas morreram. Hoje, na sua opinião, fechamos os olhos para quais outros holocaustos?
Muitos outros. O genocídio da população negra, o descaso com os jovens negros. Toda a desumanidade do serviço que está sendo prestado com os adolescentes em conflitos com a lei, as chacinas em favelas. Tem tantas tragédias acontecendo todos os dias. A questão do racismo ambiental que não é ligada só a cor, mas a história. Todos os dias há inúmeros holocaustos que a gente continua fingindo que não vê, e isso acontece diante de nossos olhos. Os haitianos, as pessoas que não têm lugar no mundo e ficam vagando pelos países. É tudo muito sério. Às vezes não escrevemos coisas que as pessoas querem ler, mas o que elas precisam ler.


Gostaria de fazer uma pergunta mais pessoal. Por que escolheu ser jornalista?

Sempre fui muito indignada. Encontrei recentemente uma professora de uma escola que estudei na educação infantil e ensino fundamental e ela disse que sempre quis me escrever sobre o meu trabalho. E me disse: você sempre foi questionadora. Realmente, sempre dei muito trabalho na escola. Sempre tive essa indignação, essa vontade de fazer com que essas pessoas encontrassem seu lugar na sociedade e elas continuam a margem. Achei que o jornalismo era um meio importante para eu fazer isso. Acho que acertei, foi uma boa escolha porque é o que eu amo fazer. Se quer
me ver feliz é falar de jornalismo, contar a história das pessoas. Completo 20 anos de jornalismo em janeiro de 2016.

Nessas duas décadas dedicadas à profissão, o que o jornalismo contribuiu para ser hoje quem você é?
Eu fico emocionada com essa pergunta que você fez. Eu ganhei muito. Se eu emprestei alguma coisa minha ao jornalismo, a profissão me deu a chance de realizar muitos sonhos.

Sobre a autora: Daniela Arbex ganhou o Prêmio Esso, menções honrosas nos prêmios Vladimir Herzog e Lorenzo Natali, recebeu o Knight International Journalism Award, entre outras premiações ao longo de sua carreira. Com a obra “Holocausto Brasileiro” conquistou o segundo lugar no prêmio Jabuti em 2014, na categoria livro-reportagem.

7 lições que podemos tirar do primeiro episódio do Masterchef Junior

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Fogaça cute-cute 100% do tempo, Paola encantada, Jacquin pinguim/bozo e Ana Paula super-mãe. Claro que não tinha outro motivo para essa reação não fosse os arco-íris vomitados do início ao fim do programa e as inúmeras lições que 20 crianças deram aos adultos na estreia do reality show culinário Master Chef Junior, que começou nesta terça-feira (20) na Band, às 22h30. Sem medo de errar, os “chefinhos” primeiramente mostraram que talento não tem idade: sambaram na nossa cara ao fazer pratos difíceis, cheios de técnica e criatividade.

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Vou resumir para então pontuar o que quero: foram três provas, a primeira para trabalhar com carnes, a segunda para trabalhar com massa fresca e a terceira para servir sobremesas aos jurados. Seis foram eliminados neste primeiro dia. Aproveito o momento também para falar que senti muita falta da Jiang, estava ansiosa pela aparição da chinesa mais querida do Brasil e tal. Aguardemos os próximos capítulos. #TeamCebora

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“Muito mais que uma competição, um espaço para aprender. Onde todos nós ganhamos uma experiência de vida”, disse Paola logo no início do programa. Talvez o feeling de mãe já a alertava para simples, mas importantes atitudes que os competidores mirins demonstraram na execução dos pratos e na convivência em grupo. Vamos lá:

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1. Sinceridade. Característica inerente de toda criança, ninguém mediu palavras para expressar empolgação, descrever o que estavam fazendo e não se inibiram com questionamentos ou comentários dos mais velhos. Demonstraram desespero quando a situação parecia não ter saída, mas também tranquilidade para focar no que poderia dar certo e driblar o que parecia ser uma dificuldade;

CRzVCvgUYAAZrOz2. Ousadia (e alegria tanãnãnã). Sem medo de errar, apostaram em pratos requintados, com ingredientes que já vi muita criança torcer o nariz para comer – que dirá cozinhar. Parecia não haver obstáculo enquanto houvesse criatividade para lidar com a situação;

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3. Autoconfiança. Decisões rápidas, foco e concentração para saber o que desenvolveriam a seguir. Montagem dos pratos feita com esmero e respostas precisas sobre o que estavam fazendo. Quando Jacquin disse “essa banana não está muito grande para a farofa?” e o pequeno cozinheiro rebateu, com resposta na ponta da língua: “é, eu quero ela mais rústica”. Se fosse no adulto, o questionamento, com certeza, faria o competidor mudar o rumo da prosa. No final, a escolha foi elogiada;

CRzsDwyWoAAs3Rl4. Saber reconhecer o erro. Esquecer ingredientes na correria, confundir rúcula com espinafre (eu confundiria fácil), falha em alguma etapa do processo: tudo justificado, sem medo de assumir que errou. E inúmeros pedidos de desculpas, apaziguados por uma acolhedora Paola dizendo que eles são novos e estão ali para aprender (e ensinar, com certeza ensinar);

f_b2adc4fa-7a45-492d-a403-2c1237f0e94c__X1A71165. Conhecimento. Não foi de um participante só que ouvi que ele tinha lido sobre determinada receita ou pesquisado sobre algum prato. Quando se gosta, o interesse se manifesta dessa forma, ampliando o universo sobre aquele assunto. Acompanhei a preguiça de competidores adultos com potencial deixado de lado pelo simples fato de limitar o conhecimento, enquanto as crianças demonstraram que valorizam a importância de sempre se atualizar. Saber nunca é demais.

f_9cc590ff-86aa-4fdb-a3cd-58fdce0ca7bd__X1A76516. Trabalho em equipe. Todos os pratos puderam ser servidos graças ao auxílio mútuo, tanto “profissionalmente” quanto emocionalmente. Se trata de uma competição? Sim, mas porque ferrar o coleguinha quando eu posso confiar no que estou fazendo e permitir que ele também faça o seu melhor? Coisa mais linda ver um ajudando o outro compartilhando ingredientes e energias positivas.

f_65a11380-1dd5-4689-a590-ca1bc8799a81__X1A77967. Companheirismo. Abraçar a causa. Tomar para si a dor do outro, lidar com perdas e consolar o amiguinho quando necessário. Compreensão de que todos ali eram iguais e que um deslize pontual não limita o poder de criação e de aprendizado. Todos são capazes de coisas incríveis. Não se pode tratar pessoas como máquinas de produção em série, mas seres passíveis de erros e acertos. E nas duas situações, é importante saber que se pode contar com quem está ao lado.

Quilling: a arte da paciência

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Há algum tempo eu queria falar do trabalho que a Alice faz. Conheci o artesanato dela depois que o jornalista Marcos Zanatta chegou na Secretaria de Comunicação, onde trabalho, falando de uma artesã que fazia peças com uma técnica muito minuciosa e que valia à pena ser conferida. Quando pude, ainda na Festa da Canção este ano, fui até lá e depois de me apaixonar pelo capricho dos itens, comprei um brinco e um marcador de páginas. A tal técnica chama-se quilling, também conhecida como filigrana em papel, originada entre os séculos 16 e 17.

FullSizeRender (3)Alice se deparou por acaso com o que hoje garante seu sustento, e motivada pela curiosidade quis aprender: quando morava no Japão, ao passear em uma das feiras de lá, viu as peças e se encantou. Pediu se a artesã autora do trabalho poderia lhe ensinar e foi a partir daí que começou. Quando chegou ao Brasil, em Maringá, há três anos, o irmão foi o primeiro a incentivar que os trabalhos fossem vendidos. Foram então apresentar as peças ao Roberto Perez, gerente de artesanato da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura, que também se encantou pelo trabalho, tão diferente. Estrearam então na Festa da Canção.

A cada feira, Alice aparece com uma novidade. Vai experimentando, investindo no que as pessoas pedem ou no que o feeling de artesã indica que poderá fazer sucesso – marcadores de livros de minions, por exemplo! Há muitas corujas feitas com a técnica também. “As pessoas aqui gostam muito de corujas, não sei por quê”, diz. Uma dessas ela demora cerca de duas horas para finalizar e então vem o processo de acabamento, com a colagem que leva um dia inteiro para secar.IMG_3718

Os papéis que ela utiliza são importados do Japão e recentemente ela descobriu no Rio de Janeiro um local que vende material com a qualidade semelhante: é preciso ter a textura e gramatura certa para que o trabalho seja feito com perfeição. O quilling pode ser resumido como a arte da paciência. Artesanato que requer delicadeza no manuseio e atenção aos detalhes. Da técnica surgem quadros, lembranças para quem visita Maringá com a Catedral feita em papel, chaveiros, certificados e diplomas personalizados, convites de casamento ou aniversário, cartões, penduricalhos para carro e tudo o que a imaginação e criatividade permitir.

A artesã é uma das 80 pessoas que têm uma barraca com suas peças expostas e à IMG_3719venda na 32ª Festa dos Estados e das Nações, que vai até domingo agora, dia 18, no Centro de Convivência Deputado Renato Celidônio em Maringá. Depois disso, seus trabalhos estarão na 2ª Festa Literária de Maringá, a Flim, que começa no dia 27 de outubro e vai até o dia 31 do mesmo mês. Fora da temporada de feiras, é possível encontrá-la no Facebook, na página Kawaii quilling, e fazer encomendas.

Projeto Tamar
Em um evento sem qualquer relação com o artesanato ou com o projeto Tamar a apresentação do trabalho aconteceu. O projeto Tamar é uma ação existente no litoral do Brasil há 35 anos que visa a preservação da vida marinha – foi pensando nisso que o irmão de Alice falou do que faziam em Maringá e o desafio de fazer uma tartaruga em quilling veio. Foram quatro meses de conversa para acertarem os moldes certos para trabalhar com o símbolo, que hoje é enviado para várias cidades do País – as últimas que receberam foram Florianópolis, Bahia e Vitória.FullSizeRender (4)

Fome de quê?

Eu jurei juradinho dia desses que iria retomar as postagens no blog com mais frequência. Eu escrevo todos os dias. Não raro, escrevo muito. Muito mesmo. Mas o jornalismo me deixa a responsabilidade de manter a objetividade. E eu queria tirar a poeira de uma criatividade que já tive em abundância. Hoje está um tanto de lado, segundo plano. Era mais efervescente quando estava na faculdade, eu imagino. Quando trocava o dia pela noite e as madrugadas me reservavam textos e personagens escondidos em cada dobrinha do cérebro.

Queria retomar a criação de personagens fictícios. Mas é que a realidade muitas vezes estica o pé para você tropeçar. Para parar e pensar, talvez. Enfim, na sexta-feira um sujeito me chamou a atenção. Já tinha dado alguns passos adiante quando nos cruzamos na avenida e só então ele chamou.

– Moça, ô moça!

Parei e voltei um pouco o trajeto. O encarei nos olhos. Ele ficou visivelmente constrangido, como se tivesse infringido algum limite invisível. Alguns dentes resistiam na boca, cada olho apontava para uma direção. Os cabelos eram ralos e a pele macilenta.

– Não fica com medo, por favor. Eu não vou fazer nada. É que eu tenho um problema – Levantou a mão direita, que segurava uma moeda – Eu só tenho R$ 0,50 e com isso eu não compro comida. Eu tenho fome.

Para variar correndo contra o tempo, revirei a bolsa rapidamente e lhe dei uma nota de R$ 2 que achei perdida, fora da carteira.

– É o que eu tenho agora, moço.
– E eu só precisava de mais R$ 0,70 que já resolvia o meu problema. – disse, sentindo-se de certa forma com sorte.
Pegou o dinheiro com as mãos de unhas contornadas pela sujeira, agradeceu com aqueles olhos de Olho-Tonto-Moody e desatou a subir a avenida. Não consegui não pensar nesse encontro com mais cara de desencontro de sexta-feira. Porque o problema do sujeito, que na falta de impulso nem perguntei o nome, era cinquenta centavos.

Aparentemente ele não tinha emprego. Não tinha casa. Fragmentou os problemas para evitar a loucura e aparentemente resolveu que encararia um problema de cada vez para vencer o dia: primeiro, lidar com a fome.

Eu esperei, até chegar no meu trabalho, que a fome fosse realmente de comida e não de entorpecente. Que ele encarasse um problema de cada vez como havia imaginado, e não estendesse as mãos para se livrar de uma realidade que não mais lhe pertence. Mas o “eu tenho fome” pode representar tanto ali. Ele tinha fome de quê? Naquele dia, se o problema fosse uma moeda e a solução para os problemas fossem mais R$ 0,70, ele teve um lucro de R$ 0,80. Moedas que lhe deram o direito de sorrir, mesmo que sem o auxílio dos dentes.

Aquele breve instante me atingiu com uma lição imprescindível para quem vive correndo contra o tempo: uma coisa de cada vez. Fragmentar para completar o todo. O que fez aquele homem que tinha medo de despertar o medo nos outros escalar a montanha de orgulho para estender a mão, pausar o tempo por uma fração de segundos do outro, e clamar por uns trocados? E como num passe mais de realidade que de mágica, reduzi meus problemas a nada. Eu tenho fome de quê?

Dor de mundo, dor de tudo

Uma vez, lendo um livro qualquer, aprendi que a “dor do mundo” tinha uma expressão só para ela. Weltschmerz. Em alemão, também pode significar “cansaço do mundo”. E talvez, só talvez, essa expressão me defina agora. Como já definiu em tantos outros momentos dessa minha curta trajetória. Talvez a weltschmerz já faça parte de quem eu sou.
Eu sempre fui do tipo que transborda, sempre me excedi no que sentia: amor, raiva, decepção ou preocupação. Difícil alguém entender essa zona de loucura que circunda os meus pensamentos, até hoje ninguém conseguiu. Surto. Surto porque transbordo, porque algo me sufoca e eu simplesmente não consigo expressar.
Li esses dias no Facebook que “a minha vida é igual um cubo mágico: quando arrumo de um lado, bagunço de outro”. E há tanto tempo esqueci que meu remédio maior – e melhor – eram as palavras. Que eu conseguia transferir tão bem o que sentia para elas, elas conseguiam traduzir perfeitamente toda aquela angústia que simplesmente surgia. Ou a felicidade aparente.
Fiquei muito tempo na calmaria e hoje sinto, me preparo, para uma maremoto. Uma tempestade. Interna, eu sei. Sempre foi. Acho incrível o mundo que construí para mim internamente e sinto falta de um lugar aqui dentro que eu pudesse ocupar para refletir. Há algum tempo venho ocupando todos os espaços em branco com preocupações – com os outros. Esqueci de mim. Me descobri e, descoberta, deixei a poeira acumular.
Se antes eu queria me encontrar, hoje quero saber onde me guardei. Me perdi pelo caminho, já não reconheço mais quem sou. E cá estou eu, transbordando de novo. Dessa vez, transbordando insatisfação. Com o que era para ser e com o que não me tornei. Não me tornei porque não sabia no que podia me tornar.
Se antes cobrava que os outros vissem alguma perspectiva futura em suas próprias vidas, como conselho de amiga mesmo, hoje não consigo mais enxergar para mim. Me questiono se um dia, de fato, consegui. A visão é turva, nada me revela. E o medo do que é desconhecido para mim novamente toma conta.
A garganta seca e o olhar se perde. Consigo observar a movimentação na rua sem me prender em um único rosto. Me vejo parte dessa multidão já sem uma identidade sólida. Mal consigo ver uma mão estendida, porque todos andam iguais. Na mesma direção, mas perdidos. Walkers. Faça isso, faça aquilo, dê atenção, estude, cresça, trabalhe, limpe, arrume, termine, escreva, ore, acorde, faça, faça, faça. Cedo ou tarde tudo transbordaria. Weltschmerz.